2017 (ou) O ÚLTIMO DESPERTAR DA LIGA JEDI DA FORÇA DA JUSTIÇA. O texto não tem nada a ver com isso.

2017…

Quem viu 2016 terminar com todas aquelas tragédias, dores e partidas de gente boa[1] deste mundo, só poderia pensar em um novo ano melhor. Afinal, nada poderia ser pior do que o pior ano de nossas vidas.

Poderia?

Me lembro de dizer que, apesar dos pesares, 2016 fora um ano tenebroso e sensacional. E, apesar de não fazer grandes planos para o futuro, 2017 me parecia um ano com boas perspectivas.

Não posso dizer que o ano cumpriu totalmente com suas expectativas, mas ouso dizer que as coisas que aconteceram em 2017 me trouxeram dores imensas, mas alegrias eternas. E, como não é improvável em pessoas que não prestam tanta atenção ao futuro, foi um ano cheio de surpresas.

Convenhamos, meu 2017 foi estranho. Começou em uma “rave” poderosa. E vocês sabem que minha animação para festas é tão grande quanto a capacidade de um finlandês rir. Aliás, é bem provável que, se eu tivesse nascido bonito e loiro, poderia facilmente ser confundido com um destes finlandeses.

Ainda não podia beber, por conta da cirurgia (não que eu o faça hoje), então, com minha memória fotográfica semiprofissional, restou-me gravar cenas que eu preferia, como diria o sábio, “desver”. Mas, vocês sabem, isso é impossível para mim.

Para compensar, minha última lembrança do primeiro dia do ano foi a de acordar cedo, duas ou três horas após dormir, para ir correr na praça.

2017 começava e parecia ser um bom ano.

Janeiro foi mês de fazer coisas que não fazia há anos. Dar umas voltas, estar em companhias boas, outras nem tanto (finlandeses são sinceros), correr e curtir férias.

Foi tempo de me mudar. Depois de anos estando casado ou morando nos quartos de família, teria um canto só meu. E haja tinta, força e fôlego para fazer mudança.

Foi tempo de ver muitos filmes. Assisti a quase 100 filmes naquele já longínquo janeiro.

Os meses seguintes mantiveram o pique de reconstrução de vida e caminhada suave pelo escaldante verão sulriograndense. As saídas cessaram porque regras eram regras e eu era praticamente a versão brasileira de Frank Martin, talvez ainda mais rígido.

Um Frank Martin finlandês. Se bem que Martin é um cidadão do mundo, não?

Em março, troquei de carro, um negócio da China. Finlândia e China agora estão em guerra. E não fossem o Canadá ou a Rússia os reis do Curling, a guerra seria no gelo. Espera, a Finlândia é no gelo. Tragam as pedras!!

Perdi dinheiro, cabelos, paciência e agora estou quase perdendo a alma. Nunca na história deste país um carro custou tanto.

Final de março foi tempo de realizar um sonho antigo. Ou dois. O primeiro foi me formar em Teologia. Desejo de muitos anos atrás, realizado ao som de música norueguesa (mas espere, não era a Finlândia?) e muitas fatias de mamão.

O segundo foi voar. Não, gente esperta, não estourei os botões da camisa e sai por aí voando com a cueca por cima das calças. Se bem que o novo Superman não usa mais cueca – ousado -. Mas ele ainda é bonito, né… Já o pobre aqui… Se bem que, se você já viu a série da Supergirl, até daria para me dar uma chance.

Mas nem todo o Red Bull do mundo me fez criar esta capacidade. Voei de avião. Meu segundo maior medo de morrer era voando num avião. O primeiro medo é só de morrer mesmo.

Para provocar os deuses, voei logo duas vezes no mesmo dia, a segunda já no crepúsculo poente. Pensei até na famosa morte da bezerra (que não voa) antes de entrar na caixa selada do caos, mas, estando lá dentro, nada mais podia ser feito, então relaxei e curti o momento.

Foi ótimo, aliás.

Conheci Londrina, cidade maravilhosamente construída para me abrigar. Tirando o calor, evidentemente.

Aconchego, beleza, arquitetura, paz. Minha maior loucura foi caminhar na rua, depois das 22h, com mais de R$6000,00 em equipamentos, voltando de um mercado no shopping perto do hotel, caminhando e nada acontecer.

Cheguei a me beliscar para acordar. Tive que voltar ao mercado e comprar remédio para tratar o braço.

Alcancei uma Utopia no Brasil. Dizem que não é tão lindo assim, mas, ora bolas, moro na terra do “Sartorão da Massa”, então eu estava no paraíso.

Me formei, de beça e tudo. Beca “M”, diga-se de passagem. Estava sozinho, mas sabia que alguns olhos pairavam sobre mim com alegria.

Voltei de Londrina formado, com canudo, malas, sem cuia, com mais dois voos na bagagem. Um deles, aliás, de provar a fé. Era avião indo para um lado e vento devolvendo ele para outro.

Venceu a tecnologia, mas algumas pessoas, como a mulher que estava sentada ao meu lado, deveriam passar nos toaletes, se fosse permitido retirar o cinto.

Cheguei de volta à terra dos cosplays e, em alguns dias, coisas começaram a dar errado com meu corpo. E as coisas só foram piorado, a ponto de eu quase perder um semestre em uma faculdade, ter que desistir de outra, ficar sem poder trabalhar e tantas coisas.

A crise bateu à porta e eu tive a sorte e o azar de me deparar com a realidade crua da vida, mais uma vez.

Foi bom, trouxe sorte porque pude perceber que ainda havia gente no mundo que se preocupa com gente. E ainda havia gente, pouca, para chamar de amiga. Azar exatamente pelo segundo motivo. E foi sorte porque a vida oportuniza limpezas.

Diria que 2017 foi esse ano de conhecer gente. Conhecer gente que mudou minha vida e conhecer gente que eu achei conhecer, mas, nas nuances de esquinais quaisquer, tal qual Holmes, acabei por encontrar pistas que me levaram ao conhecimento do desconhecimento. E, se fossem casos isolados, daqueles que confirmariam regras, eu ainda ficaria feliz. Mas, as regras foram dizimadas (e essa era só a primeira vez).

E isso é triste. Triste também porque certamente deixei gente infeliz por aí. Para o bem e para o mau. Tenho anotado no meu “Death Note” aqui, mas ele é censurado para maiores de 18 anos que não possuam as mesmas digitais que meus dedos.

Ainda assim, convenhamos (duas vezes?), focar nas coisas boas parece a melhor alternativa.

***

Aos trancos, barrancos, remédios, ajudas e vitaminas eu consegui terminar o primeiro semestre de 2017.

O segundo semestre iniciou com gratas surpresas. Entidades que baixaram no meu pátio, quase me fazendo crer em vidas passadas. Mas eu resisti bravamente e me mantive um cristão. Ou quase isso, dizem alguns.

Tempos novos. Mais um semestre de faculdade, com pós-graduação junto. E, com a epifania dita acima, os estudos, uma série infindável de atribulações e atribuições mil, algumas coisas começaram a ser, propositalmente ou não, colocadas em segundo plano.

Você consegue compreender a diferença entre os robôs e um ser humano no momento em que percebe que, em um simples telefone celular de 100g de peso, há tecnologia suficiente para lidar com dezenas de aplicativos rodando em segundo plano e realizando tarefas que você, muitas vezes, sequer percebe.

Enquanto isso, quando você, em seu mundo egoísta, caótico, miserável e bonito, colocar algo em segundo plano é jogar no famoso Mar do Esquecimento, que, aliás, ganhou esse nome devido à inteligência suprema de algum telepastor ou algo do tipo, sem sequer pagar os direitos ao pobre Miqueias. Se bem que a compreensão pode ser interessante, mas a compressão deste versículo em um oceano com amnésia é de fazer os piratas da internet terem orgasmos.

Sendo assim, deixei coisas para lá. Algumas por querer, outras porque a vida assim quis. Foquei no que me importava, e no que passou a importar mais. Isso quando meu carro deixava, claro.

Já contei para vocês do dia em que empurrei o carro sozinho na Free Way? Não? Um dia, quem sabe.

Mas, após a epifania que tive no início do segundo semestre, cresci muito em muita coisa. Aprendi muito, compartilhei muito mais, testei conhecimentos, reconheci valores e sentidos que até então estavam adormecidos e pude vislumbrar ideias interessantes sobre a vida.

Evidentemente que Frank Martin, nesse meio tempo já possuído comigo, ficou ainda mais decepcionado no segundo semestre, ao meu ver rasgar uma lista de regras rígidas e quase cultuadas por longos e longos meses.

“Demitido”, falou ele. Agradeci, peguei o boné, rasguei a lista e não guardo rancores ou arrependimentos. Regras quebradas e vida seguindo, mesmo com tropeços, quedas, retomadas de caminho e tudo mais.

Enfim, o que Martin não havia me falado era que a liberdade pós-regras era interessante. Havia um cheiro novo no ar. E eu gostava daquele cheiro.

Continuo assim até hoje, aliás. E, apesar de minha lista de regras ter sido sarcasticamente destruída, ela não tem me feito falta.

Os filmes diminuíram drasticamente no segundo semestre. Eu tinha que cuidar de muitas coisas ao mesmo tempo e, além dos TCCs que corrijo normalmente, eu ainda tinha que dar jeito no meu próprio. Então, filmes, séries, livros, todos foram ficando naquele segundo plano, restando apenas trabalhos, estágios, serviços, escritas, entidades e noites sem dormir, por diversos motivos.

Assisti 280 filmes no primeiro semestre e 121 no segundo. Uma queda brusca, mas, mesmo assim, senhoras e senhoritas, senhores e senhoritos (?), é um recorde! As séries não estão finalizadas ainda, estou em busca de um milagre, mas em tempos de entidades, epifanias e gongos soando no último instante antes do nocaute, creio conseguir terminar 2017 com uma boa gama de episódios assistidos.

Li muitos, demais, incansavelmente. De tudo, o tempo todo disponível, que não era muito. Do carro ao banheiro, do banho à sala de aula, onde dava. Ler ainda é um dos melhores remédios para a alma e eu preciso manter a alma ocupada, senão ela foge.

No campo da saúde, tirando quase ter morrido no primeiro semestre e estar à beira da morte agora, estive razoavelmente bem. Corri bastante, agitei a musculatura, coloquei esse motor velho para funcionar e, mesmo com fumaça, ainda está rodando suave. Ok, alguns solavancos.

Ainda não voltei a tomar chimarrão. Aliás, isso perdeu completamente o sentido. Como vou tomar chimarrão se a ideia é ficar girando aquele porongo infinitamente até a água acabar ou esfriar se não cabe tanta água assim no meu corpo?

Em compensação, voltei a ficar viciado em café e ainda estou tentando discipular pessoas para este culto, tomei mais isotônico do que todos os times da Série A de todos os campeonatos do mundo e voltei ao antigo hábito do chá, algo quase britânico. Mas sem aquela doutrina das 17h. Chá é chá em qualquer hora do dia, dona Elisabeth. Aliás, cuide bem da Megan, ela merece.

Por fim, 2017 foi ano de escutar muita música, de tocar muita música, de fazer o coro comer, digo, cantar, de dar aulas, levar calotes e, consequentemente, dar calotes (oi, Net!), escrever muito, publicar pouco.

Tempo de pensar muito, como sempre, odiar cada vez mais os “pensadores de comentários”, que nos revelam uma faceta obscura da alma humana, tempo de sorrir, tempo de chorar, de afastar, aproximar, decepcionar, ser decepcionado, amar, odiar, zoar muito.

Dirigir muito. Tempo de vagar pelas vagas alheias e gratuitas, tempo de falar sobre o amor de quem amou primeiro para quem precisava ouvir, tempo de ouvir gente boa, de ensurdecer para gente ruim, tempo de aprender com quem pensa nada saber, desaprender com quem ensina apenas para amaciar o próprio ego.

Foi ano de ensinar. Voltar a ser professor na área que mais amo, teologia, foi motivador. Ter cobaias para me auxiliarem me ajudou mais ainda a enfrentar a classe. Ano que vem será ano de amadurecer em busca de identidade. Mas é uma realização imensa.

2017 foi um ano de conhecimentos, epifanias, entidades, filmes, séries, livros, amigos fieis, infiéis, apegos e desapegos, viagens e alucinações, amadurecimento e imaturidade.

2018 pode ser melhor, pode ser pior. Tenho planos, desejos, sonhos, metas e curiosidades. Mas tenho a certeza de que, como sempre, em todas as esferas, 2018 será surpreendente.

Obrigado por tudo, mesmo, 2017 – o bom a gente guarda, o ruim a gente matura. E que venha um novo ano. O caderno está vazio, a caneta sobre ele, estou pronto para iniciar o roteiro.

Se eu fosse finlandês, olharia para meu 2017 e daria uma gargalhada de surpresa, alegria, nervosismo e satisfação, no geral.

Mas, como todo mundo sabe, finlandeses não sorriem. Então, se eu fosse finlandês eu só olharia e pediria mais um drink. Mas brindaria a este ano.

Se vocês virem Frank Martin por aí, digam que não me conhecem. Ou, me avisem antes. Aprendi um ou dois truques com meu amigo Luke que podem ajudar a escapar do senhor das regras.

Um abraço e feliz 2018.

[1] Veja bem. Não estamos falando dos nossos amigos, os cidadãos de bem, ok?

P.S: Não falei de política no post porque ninguém entende a porcaria mesmo, então não vamos dificultar ainda mais as palavras já enroladas do texto, já que não sou alfabetizador. Existe essa palavra?

P.S.2: Não falei de futebol porque o futebol quase sumiu da minha vida. Mas fiquei feliz com o meu time vencendo. Dei um grito e comemorei assim como um finlandês comemora uma vitória no automobilismo. Beijo, Kimi.

P.S.3: Coisas que você estava esperando eu falar e eu não falei. Talvez porque não interesse. Talvez porque você não precise ler. Talvez porque você não leia além do alcance. Tem uma música com talvez, não é?

P.S.4: É o atual console da Sony.

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