SOBRE PREDESTINAR DEFINIÇÕES E LIMITES, ou A ARTE DE CRIAR FRASES SEM LÓGICA.

Acho divertido quando um perfil traz a já famosa frase “Quem se define se limita” como status principal. Aliás, utilizando outra frase famosa, “nada contra, mas…”, será que já houve tempo para uma pequena reflexão sobre a incoerência lógica e prática da frase?

“Quem se define se limita” (Obviamente, LISPECTOR, 1492) é uma frase que, ‘definitivamente’ cria uma definição, não? Afinal, você está se definindo como alguém que não se limita ou, no mínimo, como alguém que não se define. Ou seja, sua frase pode ter efeitos catastróficos pois as contradições dela podem criar um paradoxo no espaço-tempo que poderão levar o mundo à extinção.

E são milhares que se definem como não sendo gente que não se define.

Estamos à beira do caos!

É verdade que a definição me incomoda. Muito. Pensei em escrever isso ao ver a foto da votação do CCJ e enxergar lá o deputado que carrega consigo, como se fizesse parte do seu nome, a palavra “Pastor”. Eu não entendo a necessidade de um indivíduo ser reconhecido desta forma.

Acho deplorável quando me chamam pelo que eu faço. Mas não gosto de carregar epítetos. “Rodrigo, o músico”, “o músico Rodrigo”. Não. Me dói, me irrita. Não me limita porque eu não faço somente música na minha vida, pelo contrário. Mas me deixa desconfortável porque não faz sentido que outra pessoa, por melhores intenções que tenha, queira estabelecer à minha existência uma relação entre o “eu” e o que o “eu” faz como sendo quase um conceito sobre mim.

O que eu faço não tem muito a ver com o que eu sou. O que eu sou pode influenciar no que eu faço. Mas o que eu faço? O músico Rodrigo não pode tratar de assuntos além da música? O músico Rodrigo sabe fazer algo que não envolva música? O músico Rodrigo só conversa sobre música?

Não, não sou o Músico Rodrigo. Aliás, por formação eu não sou nem músico. O que deveria definir uma pessoa é simplesmente quem ela é, sua relação com o mundo seu pensamento, suas relações. O que uma pessoa faz, deixa de fazer, ou qualquer ação desta pessoa é consequência de quem ela é.

Talvez minha fé me defina muito mais do que as coisas que eu faço. Isso quer dizer que eu quero ser conhecido como Rodrigo, o cristão?

Não.

Não mesmo.

Primeiro, eu nem quero ser conhecido. O conhecido, no caso, refere-se muito mais aos meios em que convivo do que um alvo. Segundo, eu queria mesmo ser conhecido nestes meios apenas como o Rodrigo. Cara legal, cara chato, bem-humorado, ranzinza e outras bipolaridades inatas no ser humano em questão.

“Quem se define se limita” poderia até ser verdade. Mas é uma frase mal construída. Porque nós sabemos nossos limites, podemos limitar nossas definições ao que somos e isso não gera nenhum prejuízo à experiência do viver.

Me incomoda muito mais do que isso é o “quem ME define ME limita”, porque, além de ser pobre em raciocínio, quem assim o faz está invadindo algo que não lhe pertence.

Sou músico, de profissão, teólogo de formação, filósofo em formação, professor de Ensino Religioso, pretendo ser escritor.

Mas, acima de tudo, sou o Rodrigo, um conjunto de contradições, boas e ruins, mas que, em nada, tem como parâmetro simplesmente o que eu faço.

Defina-se, ouse desafiar os seus limites. Mas seja você, não o que você faz. E, principalmente, não deixe que os outros façam isso.

Este é um lema. E lutarei por ele todas as vezes que me incomodar com alguém que, ao me chamar, apresentar, conversar sobre mim, usar o que eu faço como cartão de visitas.

Eu não sou o que eu faço. Mas, também, estou apenas divagando sobre assuntos sem sentido.

Obrigado.

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