“SE VOCÊ É JOVEM AINDA, JOVEM AINDA, A JUVENTUDE NUNCA MORRERÁ…”

Há dias em que as reflexões que partem do fundo da alma resolvem que é hora de emergir e aportam no cais da mente, criando um congestionamento de coisas a pensar maior do que a hora do Rush causa nas grandes cidades.

Ultimamente, tenho pensado muito. Bem, eu sempre pensei muito. Desde as coisas mais irrelevantes da história da humanidade, passando por caminhos tortuosos e torturantes, até chegar às crises nas infinitas esferas da mente.

Costumo cuidar para que o sótão da minha vida não acumule quinquilharias, mas, com exceção das semanas em que ele não acumulava nada porque simplesmente havia pifado, normalmente eu lembro de toda a minha vida, cenas, aniversários, até telefones que não existem mais. De outras pessoas.

As últimas semanas têm sido de intensa reflexão acerca de coisas que me cercam, principalmente acerca de mim mesmo. Minha idade, o trem da vida passando por caminhos diferentes, estações novas aparecendo, mas, principalmente, minha idade.

Não é exatamente a sensação de que você ficou velho, de repente. Não, na verdade eu não me sinto velho. E nem sou, óbvio. Pelo contrário, apesar de brincar bastante com isso, me sinto bastante confortável com a idade que tenho e não a vejo como mais do que um número.

O pensamento futebolístico também ajuda muito a pensar pejorativamente na idade. Jovens que passam dos 30 anos já começam a ser taxados de velhos. Isso é absurdamente alarmante. Ainda bem que temos divindades como Zé Roberto, que aos 43 anos esbanja qualidade em plena Libertadores da América, e com um físico de dar inveja aos jovens de 18 anos. 

Deus Roberto. Que homem!

Ao mesmo tempo, a sociedade nos esmaga em relação ao nosso valor, sempre relacionado aos números que carregamos. É como se nossa vida tivesse uma semelhança com “O Preço do Amanhã”, só que, ao invés de morrermos ao final do tempo que nos resta, vamos nos matando, dia após dia, para cumprir metas que nos são impostas pelo sistema que insiste em nos reger. Fuja deste sistema, e ele lhe alcança, mesmo que seja para pesar a sua mente e mostrar que o tempo está passando e você não é nada.

Todos os dias, acompanho, no Facebook.  A linha de tempo “neste dia”, que toda meia-noite se renova. Lá eu percebo que mudei. Muito. Em algumas coisas para melhor, talvez em tudo. Até no que eu fazia ou pensava relativamente parecido, melhorei.

Porém, o tempo passa e, mesmo com as melhoras, você percebe que não andou muito. Lê suas postagens, até aquelas que você acabou de clicar e mandar para a rede e pensa: “que coisa inútil! ” Ou “o que um cara como eu, com a minha idade, quer postando essas bobagens na rede? ”

É verdade, também, que muitas destas perguntas vêm carregadas com o anexo “o que os outros vão pensar”, anexo que me recuso a baixar, mas que sempre interfere, apenas por estar ali.

Imediatamente, pensamentos mil vêm à mente. Será que isso vai acontecer ou não vai? Até quando ficarei nesta ou naquela situação? Porque outras pessoas conseguem coisas que eu sei que tenho até mais condições de conseguir, mas não consigo? Porque algumas coisas só acontecem comigo?

São perguntas que eu tento afastar da mente. Sempre. Mas nem sempre se consegue o que se quer.

Em meio à minha jornada neste planeta, resolvo parar. Sento na calçada da vida e fico lá, olhando para aquele monstro aportado no cais da mente. Eu sei que ele não vai submergir de novo se eu não desembarcar tudo o que é preciso. Olhar para aquilo e sentir que não há forças para fazer o que é necessário machuca.

Uma jornada que, se não é grandiosa, é lutada, brigada, vencida em diversos pontos. Será que uma crise relativa ao posicionamento no mundo, idade, sucessos e insucessos vai ser a responsável pelo naufrágio de uma existência?

Não sei. Como diz o título roubado, talvez a idade seja mesmo só um estado de espírito. Só me relaciono com pessoas jovens, conheço pessoas com bem mais idade do que tenho hoje e que são bem mais joviais do que outras com seus 20 anos. Talvez eu mesmo oscile nesta relação, variando conforme o jogo, o humor, as dores e as próprias relações que regem a existência.

Realmente não sei. Certo dia, postei alguma coisa em destes Stories que estão dominando o mundo. Achei neles a efemeridade necessária para não lidar com as postagens depois. Mesmo assim, me pego olhando algumas coisas e pensando: “isso não faz o menor sentido”.

Não que eu queira ter alguma relevância. Pelo contrário. Antes eu falava de futebol, política, religião, tudo com frequência diária. Aos poucos, fui tirando meu time de campo, não porque estes são temas que não devem ser discutidos. Pelo contrário. Todo tema deve ser discutido.

Mas tirei porque ser humano desistiu de compreender o valor da discussão de temas e optou por configurar a discussão para meras disputas de ego. E meu ego não está com vontade de disputar nada com ninguém. Até porque ele, meu ego, reconhece que não sou nada, ninguém e que não vale a pena fazer outra coisa que não seja levantar a mão do ególatra e declará-lo vencedor, sem brigas, sem discussões, pois este é seu único objetivo.

Então deixei de lado. Escrevo no blog, meu canto no fim do mundo e que, mesmo replicado nas redes sociais, causa menos impacto que a batida de uma formiga em um trem.

Minhas postagens são bobas, irrelevantes e isso não me incomoda. Me incomoda quando percebo que, em muitos casos, elas não condizem comigo, não estão de acordo com minha idade nominal, são infantis, meras bobagens. Será que estou regredindo?

Não sei. Se o Chaves disse que seremos velhos, “a menos que o coração, (ou seja, a mente), que o coração sustente, a juventude que nunca morrerá! ”, ele deve ter alguma razão.

Afinal, sentir-se em conflito com a sua idade deve ser até bom. Sinal que você está preso em um conceito que não lhe cabe, em uma idealização sistêmica que não condiz com o seu estado de espírito, em uma relação equivocada entre vida e números.

É certo que tentarei, dia após dia, mudar minha relação comigo e com aquilo que disponibilizo por aí. Talvez eu devesse ser mais “adulto” na vida. E em vários aspectos, deveria mesmo. Me sinto completamente infeliz em alguns destes aspectos atualmente.

Talvez eu devesse ser mais adulto nas minhas relações. Principalmente aquelas que não deveriam mais existir e que eu permito por ter pensamentos utópicos sobre o ser humano.

Mas também aquelas de situações onde eu crio muros onde não deveria, barreiras, desculpas e frases prontas para fugir de medos, receios e compromissos que não sei se suportaria ter.

Mas, em relação ao estado de espírito, aquele que me faz falar bobagem, ir em busca de coisas que me alegrem, me relacionar com o que ou quem me faz bem, fazer o que quero, independente dos julgamentos? Não sei se um dia, mesmo do alto dos meus 60, 70 anos, se eu chegar lá, mudarei.

Provavelmente não.

Enfim, conflitos do dia a dia, que geram textos assim, mais falados do que escritos, letrados em tempo real, sem estrutura, sem cronologia, apenas devaneios, divagações na calçada do cais do porto da alma.

Aliás, me deem licença que está esfriando por aqui e ainda preciso descarregar aquele monstro. t

Existem jovens de oitenta e tantos anos

E também velhos de apenas vinte e seis

Porque velhice não significa nada

E a juventude volta sempre outra vez!

 

Comentários

Comentário