CENAS DO COTIDIANO: A DROGA NOSSA DE CADA DIA. OU, COMO OLHAR APENAS O QUE NOS CONVÉM.

Carrie Fisher tinha traços de drogas em seu corpo…

“Ai, que decepção, gostava dela.” “Era só mais uma drogada”. “Mereceu. Drogas são pecado e Deus é justo.”

Meu amigo, minha amiga… vamos trabalhar um pouquinho o conceito de drogas?

Sua cerveja, por mais saborosa que seja – e pelo que me lembro, pois faz horas, é – não é menos do que droga. O álcool contido nela… é droga.

Aquele cigarrinho maroto, alívio da ansiedade… Droga.

Aquele outro, verdinho… ainda é até proibido… Droga.

Mas isso é óbvio.

E aquele paracetamol mágico, que inibe os sintomas de algo que não está certo no seu corpo, mas que você não tem tempo para ver agora… ah, que droga né?

Aquela insônia, então… não há como dormir sem a pílula da felicidade… uma droga necessária, não?

E quando bate aquele desespero e você só consegue afogar as mágoas no refrigerante deliciosamente gelado? Quantos por dia? Semana? Ano?

E a ansiedade que só é rebatida com comida? Salgada, doce, fria, quente…. Apenas me dê esse prato!

E aquela sensação espetacular da alta velocidade? Ah, 209km/h? Fácil!

E isso aqui? Essas redes sociais todas, que tanto anestesiam, são armas, alegram e ferem?

Os relacionamentos amorosos? As amizades?

São tantas as coisas que poderíamos ficar horas discorrendo listas e mais listas.

 

O fato é que, lícitas ou não, as drogas fazem parte da nossa jornada, quer percebamos ou não. O fato de a atriz estar com drogas no corpo não é diferente do que nós temos no nosso corpo, das coisas que usamos ou fazemos para que nosso mundo gire mais rápido – ou mais devagar -, para que nossas dores sejam amenizadas, anestesiadas ou, quem sabe, desapareçam de uma vez por todas.

Não é diferente dos recursos mil que utilizamos para tentar fugir de nossa realidade ou, que sabe, fantasiar uma que nos seja mais agradável ante ao real que detestamos.

É fácil atacar um corpo inerte, vencido por circunstâncias mil. Quantos destes que, hoje, destilam ódio, estariam lá se, ao invés de ir de encontro às suas drogas, Carrie fosse à público clamar por ajuda, socorro? Quantos virariam as costas com argumentos do tipo: “alguém que tem tudo o que tem de ser assim? Vá pagar um psicólogo!” Ou algo do tipo? Ou simplesmente fingiriam… “Ah, não é comigo!”.

Abandonamos nossos “amigos”, “ídolos”, “amores” e tudo mais, ao menor sinal de fraqueza dos mesmos. Talvez por medo de sermos puxados para baixo por aquela fraqueza.

Ou, quem sabe, por não suportarmos olhar para quem sofre e enxergarmos a nós mesmos, que tentamos fugir de nossas dores dia após dia.

Ninguém sabe o que o outro passa e porque chega a pontos inexplicáveis de suas vidas. A não ser que o outro se abra. E que alguém esteja disposto a ouvir.

Drogas…

TODOS usamos as nossas drogas. E drogas são drogas, independente do conteúdo, tamanho, ação, consequências. Não importa que “ah, mas esta aqui não vicia, não faz mal, eu controlo” ou “nem é droga”… Ou ainda “eu só estou me divertindo, sei quando parar”.

É engraçado enxergar um mundo doente, cheio de pessoas drogadas pelas mais diversas coisas. Coisas, ou drogas, aliás, em sua maioria lícitas, vendidas nas melhores lojas, com os melhores preços, à disposição em todo o tempo.

Mas o artista não pode. Ele é exemplo. É ídolo. É espelho.

Se é espelho, deveria refletir a sociedade doente em que vive. Que não se importa com o seu próximo. Que ignora a dor do outro para que esta não afete seus sentimentos hedonistas.

Nos escondemos em um mar de hipocrisias porque a tendência é a de que iguais protejam os seus. Em um mar de hipócritas, gente de verdade se afoga sem que se tenha piedade.

Carrie se foi. Sabe-se lá pelo que passava. Como se foram outros tantos. Como se vão, diariamente, tantos outros.

Uma das drogas que mais mata atualmente se chama tristeza. Profunda. Silenciosa. Letal.

Porém, em nossa sociedade, temos que recorrer a drogas para tratar os sintomas de drogas, porque não damos suporte uns aos outros.

Somos apenas juízes e emitimos sentenças diárias contra qualquer um que possa mostrar o quanto a humanidade é falha e o quanto precisamos uns dos outros.

Não defendo o uso de drogas. Jamais.

Apenas me pergunto até quando vamos colocar nas coisas a culpa de algo que é reflexo de nossa humanidade torcida. Apenas me questiono.

Qual é o real conceito de droga?

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