CRÔNICAS DE UMA VIDA QUALQUER.

Era um dia frio. Talvez houvesse um bom lugar para ler um livro, mas ele não tinha tempo. Nem vontade.

Sua vida andava caótica. Olhava pela janela e não sabia se a escuridão era mesmo da rua ou se era o tempo sombrio que estava dentro de si que refletia no vidro. Apenas fechava a cortina. Era melhor do que colocar mais um pensamento na fila de coisas a decidir.

A vida inteira, exigira de si mesmo ser o melhor em tudo o que ousasse fazer. Diferentemente do que se pudesse pensar, não era algo para ser admirado ou referenciado por quem o rodeasse. Não estava em busca de bajulação.

Era uma questão dele para com ele mesmo. Ele precisava provar para si próprio que não era um fracasso.

Sempre fora assim, desde os mais idos tempos dos quais ainda lembrava. Elencava seus sucessos muito menos do que os fracassos, porque era a listagem dos fracassos que ele precisava, de alguma forma, resolver.

Em meio a tudo isso, lidava com a vida de forma múltipla. Para cada situação, uma resposta diferente. Ele seria o terror dos antigos jogadores de videogames. Se ele fosse um jogo, evidentemente.

Porque não havia padrão no que fazia. O único padrão que respeitava era: não poderia falhar. Cada falha era como um golpe de misericórdia. Então, ele considerava já ter morrido diversas vezes.

Há algum tempo, tentava se reerguer de uma queda gigantesca, que lhe expôs muitos fracassos ao mesmo tempo.  Fracasso em relacionar-se, fracasso financeiro, fracasso profissional.

Era uma crise paradoxal. Porque ele sabia como se relacionar, talvez até muito bem para alguém com seu ar de antipatia prepotente. Tinha talentos, sabia disso, reconhecia em si mesmo capacidades para fazer mais de uma coisa e bem. Mas isso não se convertia em finanças resolvidas já há algum tempo.

Ele já não sabia mais como agir.

Aquilo o deixava doente. Não sabia lidar com o medo de fracassar em nenhuma área e isso o afastava de viver. Evitava falar coisas, sentir coisas, fazer coisas, tudo para que não houvesse chance de fracassar.

Fugia do amor, apesar de ser impossível. Fugia de qualquer relação mais profunda, fugia de lugares onde ele pudesse sentir a possibilidade de não fazer as coisas da melhor maneira.

Apenas fugia.

Era um covarde? Não, em absoluto. A vida já lhe mostrara que, se havia algo para o qual ele não poderia ser qualificado, este algo era a covardia. Já passara por muito naquela vida e, não fossem atitudes de coragem ante ao improvável, provavelmente já não estaria por aqui.

Era medo. As diversas rejeições que teve que enfrentar nos últimos anos fecharam caminhos. E, ainda que soubesse que havia deixado um ou outro espaço aberto, lutava contra isso diariamente.

Era uma luta injusta, porque, em análise final, de qualquer forma ele venceria. E perderia.

Ansiava superar o medo do fracasso, relaxar e ser apenas alguém em busca de alegrias, paz e bons momentos. Sem a pressão de sua própria mente, sem o desespero que insistia em lhe perturbar, sem as dores que as pessoas lhe causavam, justamente por ele se importar demais e, por medo, silenciar ao ser pisado.

Era isso. Um medo ansioso. Um anseio por não fracassar que o levava diretamente ao caminho que desejava evitar.

Gostaria de fazer o que ama fazer. Viver do que ama fazer. O mundo lhe pressionava a fazer coisas que não gostaria. Ele sempre detestou se submeter aos sistemas injustos do mundo e agora sucumbia sob um deles: sem conseguir cumprir com suas obrigações, onerava ainda mais sua vida.

Sem conseguir se reinserir nos meios em que precisava, fracassava em sobreviver.

Se via escravo de seus próprios sentimentos. Porque, em sua mente, todos olhavam para ele lhe cobrando por algo que não fora ele quem havia iniciado. Ele não optou por desfazer nada que um dia tivesse feito. Apenas se acostumou, percebeu coisas que antes não percebia e resolveu seguir adiante, sem deixar absolutamente nada para trás.

Mas aquele sentimento de que, cada vez que ele ousasse falar sobre sentimentos, uma manada de olhos vorazes o julgariam como um eterno amante do que para trás ficou o impedia de seguir em frente e falar sobre as coisas que gosta de falar.

Era evidente que o medo de voltar a fracassar nisso também o impedia. Já havia, inclusive. Mas isso não importava.

Gostaria de seguir em frente e realizar seus desejos. Não os impossíveis. Estes estavam estacionados em uma garagem qualquer, que ele temia nunca esquecer o endereço, apesar de lutar insistentemente para que isso acontecesse.

Pensava naqueles que ele tinha condições de realizar. Que ele sabia ter condições. Entretanto, parecia haver algum raio paralisante o impedindo de seguir em frente, fechando portas e trazendo sentimentos retumbantes de fracasso para a janela de sua alma.

Não era fácil. Há alguns meses, ele pensou em fechar as cortinas do espetáculo ruim que estava protagonizando. De forma definitiva. Até nisso fracassou. Fora mero pensamento agonizante.

Que ele decidira, novamente, nunca mais pensar. E esperava, nisto, não fracassar.

Mesmo assim, continuava a não ser fácil. Aliás, pútridos eufemismos que insistimos em usar para criar uma estética falaciosa de nossa existência. Ou para fingirmos que somos cultos a ponto de não falarmos palavras que, em nossa moral patética, soam desagradáveis.

Afinal, o mundo em sua volta aceitava a hipocrisia de um “amada”, “amado”, “querido”, “querida”, “amor”, e outros termos, tantas vezes sinceros e, tantas outras, mero embuste para pensamentos odiosos.

Seria imoral dizer que a vida andava como a mais perfeita merda, deixada para tornar fétido o ambiente onde ele repousara. Afinal, palavras torpes, na mente de parte da sociedade, são entendidas de forma literal, assim como suas literaturas mal lidas.

Queria se livrar daquilo. Quem lhe acompanhava mais de perto o incentivava a ser apenas quem ele era. A deixar de enxergar a vida pelos olhos de quem o diminuía. A amar a si mesmo, compreender as mudanças que a vida lhe trouxera e buscar aquilo que almejava.

Eram pessoas boas.

Mesmo que algumas lhe irritassem profundamente em alguns momentos, em geral, eram pessoas por demais importantes para que ele deixasse de viver por medo. Já fracassara com todas elas e as mesmas continuavam em sua volta. Não entendia os motivos.

Aliás, ele nunca entendia os motivos pelos quais ele conseguia se comunicar bem com as pessoas. E, por mais que não conseguisse controlar até onde isso iria, permitia que continuasse.

Por fim, ele abre a cortina novamente. Ainda está escuro. Ele resolve abrir o vidro para tirar a dúvida. Nada mudou. Era o tempo lá fora que estava escuro.

O que ele queria? Afinal, era noite. Fria, sombria, silenciosa, solitária.

Mas, assim como todas as noites, em algum momento recebem raios de luz, anunciando que sua hora é chegada e vão, pouco a pouco sumindo, ele trazia consigo a esperança de que, ali na frente, raios de luz iluminariam o caminho a seguir e ele poderia caminhar com segurança.

Até lá, ele continuaria a procurar soluções, lutar batalhas que ninguém veria e a encontrar, nos braços e palavras de quem ainda o amava, consolo, forças e coragem para seguir em frente.

Nisto ele sabia que não poderia fracassar.

***

Esta parece ser uma história fictícia. Qualquer semelhança entre cenários, pessoas e situações, talvez, sejam apenas mera coincidência.

 

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