SOBRE CHEIROS, VIAGENS NO TEMPO E O NELSON.

Ontem senti um cheiro.

Um cheiro qualquer. Não sei qual. Verdade. Não tenho a menor ideia. Mas aquele aroma me fez viajar no tempo. Voltei anos e anos no tempo. Quando vi, estava na década de 90.

Não, nem sou tão velho assim. E isso nem importa. A não ser que você queira se aposentar no Brasil ou algo do tipo. Aí também não vai importar muito.

Lembrei da rua da casa de minha bisavó. É aqui, pertinho, saindo de casa, pegando a rua que fica aqui do lado, andando alguns passos, dobrando à esquerda ali, onde o vento faz a curva e o Minuano para pela última vez antes do final da linha.

Naquela época ele nem chegava até aqui.

Logo depois, dobra-se à direita, mais alguns passos e estávamos lá. Minha avó morava lá também. E eu passava boa parte de minhas férias com ela. Afinal, além de minha avó, era minha madrinha. Um caso de injustiça bastante justa, por sinal.

Foi neste período que aprendi a ir até o Armazém. Veja bem, nem se fala mais este nome. Antigamente, os “mercadinhos” eram chamados de Armazém por aqui. Talvez ainda sejam, em algum lugar.

Um pouco antes eram simplesmente a “Venda” de alguém.

O cheiro me levou ao Armazém do Nelson. Não lembro do nome. Mas eu sabia, na época. Entro no velho armazém. Os balcões, em forma de L, começando à minha esquerda e indo até o final, onde havia um espaço para o Nelson se revezar entre o espaço privado e o de circulação de clientes.

Depois, um outro balcão, este de frente para quem entrava. Ali ficava a caixa registradora. Uma caixa grande, com um tipo de palanca à direita, que o Nelson puxava duas ou três vezes, até ela apitar e abrir a gaveta do dinheiro.

Nunca entendi aquele mecanismo avançado.

À direita de quem entrava ficavam algumas prateleiras simples, de madeira, onde alguns produtos eram expostos. Não lembro exatamente de quais.

Porém, ainda me lembro de comprar “Maisena” em algum momento. Eu escrevi e o corretor mudou o Z para S. Talvez ele esteja certo. Mas acho que ele não lembra.

Ele vendia verduras e frutas também, acho. Lembro da balança, vermelha… ou era cor de vinho? Era uma balança que certamente inspirou a imagem do ET, mas com um prato de metal na altura do ventre do boneco, como aquelas motos com banco pra passageiro, os sidecars ou algo do tipo. Só que pra comida.

Curitiba-Armazem-Santa-Ana
O cheiro, sinto o cheiro!

Bastante interessante.

Passado algum tempo, nós viemos morar neste endereço, onde estamos até hoje. Primeiro, meus avós, depois nossa família. E eu continuava a frequentar o Nelson. É verdade que, ali do ladinho, colado, tinha o Valdir. O Valdir era o Açougueiro.

Vendia carnes o dia todo, revezando com alguns papos. Sempre perguntava da minha avó. Às vezes, encontrava com o Valdir ali no Nelson.

Foi no Armazém do Nelson que me corrompi em termos de comidas mortais. Foi lá que comecei a comer um salgadinho que parecia as Pastelinas de hoje em dia, mas era mais barato… E muito mais salgado. Não consigo lembrar do nome, mas lembro que ele tinha a embalagem transparente, o rótulo vermelho e não era Paviolli. Era um concorrente melhor.

Aquilo era um vício maldito.

Foi no Nelson que conheci o Fandangos, que se tornou um dos grandes vilões da minha dieta nos anos seguintes. E foi lá que bebi muita Baré-Cola.

Ainda assim, o que eu lembro bastante era do baleiro. Ele ficava, primeiramente, no balcão da frente. Depois, o Nelson foi cedendo à modernidade e o baleiro já ficava no balcão da esquerda, aquela marrom com o tampo merengue, com um vidro embaixo, mostrando os refrigerantes. Ah, sim, o balcão era como uma geladeira.

A modernidade da época.

Voltando ao baleiro. Foi ali que passei a detestar bala de banana. Nem lembro por qual motivo. E foi ali que conheci a Bala 7 belos, assim como a famigerada Soft.

Mas o que era maravilhoso mesmo eram as balas Xaxá. Ah, as velhas balas Xaxá. O Nelson tinha todas, mas principalmente aquela de abacaxi, a amarela, xodó de todos os contemporâneos humanos da época.

Enfim, o Armazém do Nelson era o paraíso.

Saio do Nelson, dou uma passada pelo Valdir, abano e fico me perguntando para onde ir. Olho para a rua onde o vento faz a curva. Ela está ali, chão de terra. Não faz tanto tempo assim que ela foi asfaltada. Era terra mesmo.

Lembro de um acidente entre mim e minha irmã naquela rua de terra. Ambos de bicicleta. Coisa de cinema.

Apanhei.

Era assim, muito mais “roots”, como dizem os memes da internet. Internet que só existia para além do mar. Chão de terra, sem muro de contenção. E as águas não eram tão agressivas assim nos períodos de chuva.

Me lembro de uma ocasião em que tivemos que enfrentar um alagamento destes. Eu e minhas botas Sete léguas. Nem sei se é este o nome. Não importa. Eu estudava na escola que fica quase ao lado de minha casa. Mas era o suficiente para enfrentar as chuvas.

Aliás, que tempo bom aquele de Escola. Ainda guardo lembranças tão boas que eu tenho certeza de que teria mais espaço no meu HD se conseguisse me livrar de algumas. E ainda trago alguns amigos daquele tempo até hoje.

Gente boa.

Ainda que fosse perto, eu tinha que caminhar um pouco pra voltar pra casa, porque a entrada da Escola ficava no outro lado de onde eu morava. A ironia é que, hoje, a entrada fica deste lado. Mas é o que aprendi a chamar de “azar no azar”.

Pra voltar, eu passava por uma ponte estreita, de pedestres. Era de madeira, meio torta, com Corrimões que davam mais medo do que as falhas de madeiras podres que havia no meio da mesma.

Alguns anos depois, trocaram a ponte por uma mais resistente e, por fim, colocaram uma ponte grande, para carros e pedestres, que está ali até hoje. Mas eu passei por aquela ponte quase caindo, com a água batendo nas madeiras e aquele sentimento de que a travessia era uma aventura de vida ou morte.

E eu nunca fui lá o cara mais corajoso da face terrestre, certo?

Hoje, aquela ponte não resistiria uma hora. Nem pensar. Seria levada pela correnteza do arroio que já não suporta tanto descaso. Naquele tempo, ele resistia, cercado de terra por ambos os lados.

Volto meu pensamento para as vezes em que fiz o caminho entre a casa da minha avó, também minha, e a da minha bisa. Foram quase cinco anos até que ela falecesse, a bisa, e neste tempo, fiz muito este percurso para ajudar a vó a cuidar da bisa. Não que eu fizesse muita coisa.

Mas eu ia no Nelson para ela. Ou no Valdir. Às vezes, eu tinha que apelar e ir ao Zico, que ficava do outro lado da rua, mais para frente, uns 200 metros. Eram concorrentes. Ninguém gostava muito do açougue do Zico. Coitado do Zico.

Algo me traz de volta para o tempo presente. Acho que o cheiro tinha prazo de validade. Voltei da viagem e ficaram as lembranças. Até porque o passado está lá pra isso mesmo, pra que as viagens aconteçam, nos tragam lembranças e depois nos remetam ao presente mesmo, que é onde nós devemos ficar.

Ainda assim, muitas coisas boas foram lembradas. E algumas perguntas também ficaram na mente, afinal, o mundo é movido pelas perguntas…

Por onde será que anda o Nelson? Será que ele ainda está vivo? Será que ainda mora nos fundos de onde era o Armazém?

Porque o Valdir, o homem das carnes, comprou todo o terreno e o transformou em um minimercado. Com açougue, claro. Trouxe os filhos para o trabalho. Até uma venda de frango assado passou por ali.

Depois de um tempo, o Valdir vendeu para outras pessoas, que transformaram o lugar em algo um pouco maior. Ainda um mercadinho de bairro. Mas com padaria, açougue e tudo mais.

Entretanto, não é mais um Armazém. Não tem mais baleiro. Nem balcão. Sequer pense que pode haver Baré-Cola.

E nem o Nelson. O velho Nelson.

Por onde será que anda o Nelson…

comercio
Uma imagem que traz boas lembranças. 

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