Sobre Chuvas, Tempestades e a Síndrome da culpa Alheia

Chover nem é o problema. Afinal, ninguém tem poderes mágicos, capazes de impedir a natureza de seguir seu curso. A chuva é importante, essencial, natural e, em última análise, boa para quase tudo.

O problema somos nós.

O que nós fazemos com nosso habitat? Sou um fã confesso do mundo antigo. E sou um fã confesso de todos os avanços tecnológicos possíveis. É verdade que sou muito nostálgico, mas minha nostalgia é muito mais em reverência aos acontecimentos, pessoas e sensações vividas no passado do que em coisas.

O mundo avança. E avançar é sempre para frente, não espere algo diferente. Seria uma contradição. Mas… espere! E o ser humano que está inserido neste mundo? Por que ele não avança? Por que somos capazes de ter as melhores ideias do mundo e, ao mesmo tempo, somos capazes de destruir o próprio meio em que vivemos?

Ontem à noite, ao colocar o portão de contenção de água que recentemente inauguramos aqui no nosso endereço, fiquei pensando naquela batida frase que diz que algo como termos que criar soluções para problemas que não precisariam existir se, ao menos, pensássemos em pensar.

Mas preferimos ter que encontrar soluções para as consequências de nossas barbáries. Há muito tempo, aqui no Porto mais falaciosamente Alegre do país, houve-se falar que boa parte da cidade foi feita sobre o manto dos  aterros.

Já escrevi isso uma vez, em uma brincadeira. Nós, assim como quando da “descoberta” do país, criamos o Porto roubando espaço do rio. E a natureza não é vingativa. Ela apenas precisa voltar ao seu lugar.

Uma questão bem simples. Um dia, a natureza simplesmente vai retomar o seu lugar.

Porém, este não é o nosso caso atual. Ou não é o todo. Aqui, nossa culpa é mais acentuada. Porque, na ânsia de erguermos nossas cidades, nos esquecemos das mais óbvias necessidades de sobrevivência. O que importa é erguer prédios. Se a chuva virá e não tivermos onde comportar tanta água, já teremos lucrado com isso, culparão outros.

Ruas sem escoamento, esquinas em declives pouco inteligentes e propícias a serem piscinas, sistema de asfaltamento absolutamente burro e a falta de planejamento de emergência são alguns dos pequenos pontos a serem observados.

Isto é culpa de quem projeta. Culpa de quem não revê o projeto. Culpa de quem só enxerga cifras, não importa saber de resultados.

Arroios em meio a zonas domiciliares, mal projetados, esgotos abertos, maquiados sob a batuta do populismo, mas que são apenas reservatórios aptos a receber água e empurrá-la para fora imediatamente. Que governo se importaria em resolver estes problemas para o povo?

Aí criamos as bombas para ajudar a fazer com que esta água não se torne a vilã das histórias e… NUNCA vi uma ocasião em que estas funcionaram. Desde que me conheço ser capacitado a pensar e reagir ao meio em que estou inserido, TODA a chuva mais forte gera a mesma situação caótica

Ruas cheias de lixo, ruas que viram lixos, ruas que são tratadas pelos seus usuários como lixo. Desde a saída dos grandes mercados, onde pessoas em seus carros possantes, novos, grandes, usam o ticket para abrir a catraca de saída e, com um, dois, às vezes três cestos de lixo junto ao painel, jogam o papel no chão.

Presencio isto TODAS as vezes em que vou ao mercado.

Gente que descarta lixo “lá” porque “lá” não é “aqui” e pode. Depois estão bradando indignados contra o governo por suas casas estarem debaixo d’água. Não sou e nem serei – jamais – defensor de nenhum governo. Mas, desta vez, ah, minha amiga, meu amigo, o governo é apenas parte da quadrilha. Cada um com suas vantagens.

A culpa é sua. É minha. É de todos. O governo, como todos os governos, vai sempre jogar a culpa em alguma coisa, principalmente no acaso, no crescimento da cidade, na falta de recursos que NUNCA existem, mas que financiam, em paralelo, todo o tipo de propina, como vemos a cada dia, na natureza que “é incontrolável” ou “imprevisível”, quando vemos isso TODOS as vezes que chove e tantas outras coisas.

O governo é muito culpado. Tem muito de culpa e de uma safadeza que ultrapassa todos os limites racionais. Todos os governos. NENHUM resolveu até hoje. E deve continuar assim.

Ainda assim, isso não exime a sua culpa, a minha culpa. Nossas ações geram a reação do irracional. A chuva não vai escolher jogar suas lágrimas apenas onde sabe que não vai prejudicar ninguém. As águas não vão escolher cair em lugares onde o escoamento seja útil e não prejudique a população.

O lixo que entope os escoadores, o lixo que está nas ruas não chegou lá caminhando. O lixo que fica boiando nas enchentes não resolveu sair de casa para tomar um banho. Ele está lá por um motivo: o ser humano.

Além de invadir a natureza, zombamos da incapacidade de ela reagir aos nossos assaltos. Pois bem, ela reage. Sem saber, ela reage. E, sem dúvidas, ela é muito mais eficiente em ser forte.

A natureza simplesmente vai tomando os lugares oferecidos para ela. Aqueles que sobraram. E ela vai retomando o seu lugar, se não há para onde ir.

Pripyat - Chernobyl
Pripyat – Ucrânia: Chernobyl esvaziou, a natureza voltou. 

Quem já viu fotos de lugares abandonados sabe do que estou falando. A natureza age de forma precisa em retomar o que é seu.

Ou respeitamos isso e agimos de maneira a criar um convívio sadio, encontrar soluções para que as catástrofes não aconteçam, ou que realmente aconteçam somente no totalmente imprevisível – se é que as pessoas um dia entenderam o que significa “imprevisível” – ou estamos fadados a lidar com situações como estas, alagamentos, caos, perdas, mortes, sempre.

E, pasmem! Há lugares espalhados pelo mundo, onde as situações criadas pela natureza são ainda piores. E as pessoas lá, que parecem ser seres humanos também, encontraram em suas próprias mentes a capacidade de lidar com isto, criando soluções práticas, tecnológicas, naturais e culturais, ou seja, adquirindo culturas que trabalhem em prol de todos e conseguem, se não acabar com o grande caos, minimizá-lo.

Não é nem questão de pensamento “vira-latas”, até porque os “Vira-latas” são mais espertos do que muito cartaz com “pedigree”. É pura questão de constatação:

Nós criamos as condições exatas para nos afogarmos e depois reclamamos, nos debatendo sem parar.

Até quando? Não tenho maiores esperanças imediatas. Mas ainda conservo a esperança.

Quem sabe?

Shengsi
Shengsi – China

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