EM FRENTE…

02 de junho. 2017. Dezesseis meses. Um ano e quatro meses desde que tomei a mais radical das minhas decisões. Pelo menos até ontem. Ou hoje.

Nunca se sabe.

Não tem sido a mais fácil das tarefas. Aliás, de dois meses para cá, muita coisa ficou difícil. E mesmo eu, que aprendi com esta cirurgia a superar desafios que pareciam inatingíveis, me vi nas cordas, sendo socado pela vida e, mesmo com a guarda em forma, apanhando bastante.

Foram muitos knockdowns. Consegui levantar em todos. Não é fácil.

Sempre me arrisco a ser mal interpretado pelos que leem este site. Porque muitos acham que é promoção, drama ou que eu deveria ver se não há uma louça para lavar ao invés de ficar falando na internet.

Como eu costumo falar, meu blog é meu divã. Não é meu diário, é meu divã. Com a diferença de que qualquer um pode ter acesso aos arquivos das minhas sessões. Se vão me compreender ou não… já não importa.

A verdade é que, desde que comecei a sentir fraquezas, tonturas, dores e os problemas emocionais decorrentes destas e da minha relação com o espelho, a vida se tornou um pouco mais complicada.

Tornou-se difícil lidar com o dia-a-dia, comigo mesmo, com o próximo, com os afazeres diários, a faculdade, trabalho, enfim, tudo ficou mais complicado.

Tive problemas de memória, o que nunca me aconteceu. É certo que eu tenho algum problema com minha infância e de lá não lembro nada. Mas sempre lembrei de tudo. E andava esquecendo até o que acontecia em tempo real.

Tive que voltar aos médicos, me arrastar por dias, meses. Até hoje. É verdade, também, que me animei nas últimas duas semanas. Consegui voltar a correr, me exercitar, sentir que eu ainda era capaz de controlar coisas que eu pensei que não poderia mais.

Voltei a conseguir lembrar da maioria das coisas, apesar de ter lapsos, ainda. As crises de tontura ficaram mais espaçadas e eu consegui me animar a ter mais vontade de fazer algumas coisas.

Continuei – e continuo – tendo dificuldades em lidar com minha imagem. Passo dias pensando se não estou comendo demais, se não estou engordando. Passo parte do meu dia pensando se voltarei ao que era antes.

Me olho no espelho de casa e me vejo como era antes. Minha visão sem camisa não me agrada. Sempre vejo meu rosto e parece que ele cresceu alguns centímetros desde a última vez.

Olho para fotos atuais, inclusive as que foram captadas nestes dias e penso que eu devo estar exagerando. Porém, a imagem no espelho me incomoda.

Ainda.

***

O que passou a me incomodar ainda mais foi a falta de inteligência das pessoas ao lidarem com alguém que passa por problemas. Talvez a minha total falta de preparo em passar por situações assim tenha gerado estas aberrações. Eu sempre fui muito reservado em todos os meus problemas.

Procurei minimizar tudo o que sentia, para não dar maiores explicações, ou simplesmente por pensar que as pessoas não têm a obrigação de ouvir os meus problemas. Quaisquer deles.

De repente, sinto a necessidade de me expor, porque percebo que, sozinho, não vou conseguir caminhar muito tempo. Percebo que aqueles sentimentos de findar a carreira voltaram a rondar a mente.

Ainda assim, não deu muito certo. Com pouquíssimas exceções, o que ouvi foram julgamentos. A começar pela busca constante de pessoas em encontrar indícios de algo que eu tenha feito para chegar aos problemas de vitaminas e seus sintomas.

Não poderia ser uma falha do corpo. Não poderia natural pela cirurgia que fiz. Tinha que ser algo que eu havia feito. Não foi a totalidade das pessoas. Foi assim que me acostumei a viver nos últimos meses: “sim, estou tomando os remédios direito”, “sim, estou me alimentando direito (como sempre) ”, “sim, tenho me cuidado”, “sim, estou fazendo as coisas direito”.

Porque todas as perguntas que geram estas respostas impõem um sentimento de culpa? Eu não sei qual a necessidade das pessoas em fazer isto, e chega um momento em que a reação passa a ser um “tanto faz” ou um “manda mais perguntas que impõe dolo, manda mais que está pouco”.

Muito da minha reação foi no sentido de mostrar, com sorrisos e força que estava melhorando. Quem sabe assim a futilidade parasse. Em parte, deu certo. O que parece fazer destes tais, heróis.

Mero engano.

Continuo com tonturas. Continuo tremendo. Continuo sem ânimo. Melhorei? Sim. E continuo lutando. Todos os dias. E com novos desafios que se levantam a cada dia.

Resolvi, como outros textos por aqui expressaram, fazer uma limpa. Continuo fazendo. Me calei com muita gente. Muita gente me feriu. Sem perceber, talvez. E o que importa se arma dispara sem querer ou com a mira proposital, se o tiro atingir o alvo de qualquer forma?

Enfim, a luta continua, companheiro, como diria um outro senhor.

Olho para esta colagem que fiz para esta postagem. Ao colocar a camiseta da minha “identidade secreta” pela primeira vez, me sinto gordo. A camiseta eu comprei há três, quatro meses. Nunca tinha usado. Porque era pequena. Aliás, é pequena.

Tenho que enfrentar o espelho para vesti-la. Não tenho, mas faço. E me sinto enorme. Olho para o meu rosto e aponto: “você está gordo! ”. Saio da frente do espelho e vou tentar tirar uma foto decente.

Não preciso, como é costume, colocar a barriga para dentro, peito para fora. Nem consigo fazer isso, aliás. Dói. Mas parece. Não importa.

Entro no meu perfil do Google Fotos e passo a procurar uma foto de melhor resolução do que a que usei até hoje, para representar minha pré-cirurgia.

Olho para aquela pessoa. E também não me reconheço.

Aquela pessoa, que parece ter sido eu por um longo tempo, não sou eu. Parece nunca ter sido. Eu não consigo entender porque, quando era daquele jeito, eu não me sentia daquele jeito.

Coloco as fotos lado a lado. Não parecem ser fotos da mesma pessoa. Perto daquele outro, eu me sinto mais magro. Entretanto, continuo me sentindo com vontade de correr 10Km amanhã.

É um sentimento estranho este de não pertencer a nenhuma identidade.

Em 1993, aos 12 anos, eu passei a gostar muito de Homem-Aranha. Logo em seguida, passei a colecionar tudo do Spider. E mantive a brincadeira de que eu era o tal.

Sempre fui muito fã, tive centenas e centenas de HQs, das quais conservo parte, ainda. E talvez, sempre. As pessoas que conviviam comigo, entravam na brincadeira, e o fazem até hoje, assim como eu mesmo.

Talvez pela máscara. Talvez pelos diversos desafios que o homem embaixo da máscara enfrentava e deixava em segundo plano para, ironicamente, ajudar outras pessoas.

Me sentia representado por um “herói”, mesmo nunca me sentindo um, mas porque ele era o cara que usava uma máscara, abusava das piadas e ironias enquanto escondia uma vida cheia de conflitos.

A síntese da minha vida.

Hoje, ao vestir a camiseta, não me senti como o Spider. Me senti gordo, é verdade. E me lembrei disso. Ao lado, o quadro comprova que o teioso me acompanha. Temos, realmente, muito em comum.

Claro que ele é magrinho e tem superpoderes. E é um desenho.

Volto a olhar para as fotos. Por um breve momento, comemoro a mudança. Anseio por mais. Preciso de mais. Mesmo que me encham todos os reservatórios de paciência, me culpando por pensar sobre o que eu quero para mim, ousando achar que podem doutrinar a minha vida, eu sei até onde já fui e onde posso ir.

Aprendi tanta coisa depois desta cirurgia que poderia lecionar 4 semestres sobre a vida a partir desta perspectiva.

Ao mesmo tempo, a palavra que mais me assombra, que limita muitas das minhas ações, que me impede de ir adiante em diversos assuntos que já deveriam estar resolvidos na minha vida… A maldita palavra aparece, tal qual um outdoor, reluzindo e buzinando:

“Fracasso”.

Tenho total consciência de que esta é a minha maior kryptonita. Maior do que a asma. Maior do que o espelho. Maior do que os sanguessugas. Meu medo de fracassar já me fez trilhar diversos caminhos tortuosos.

E, mesmo sabendo que eu tenho totais condições, eu tenho este medo e ele me consome.

“Ah, mas você sabe que é coisa da tua cabeça”. “Ah, pare de pensar desta forma”. “Ah, você está errado, tire isso da mente”.

Já ouvi tanto que até parei de responder mentalmente as obviedades que escuto. O ser humano não compreende sua própria complexidade. Isso é fato. Não percebe que a mente é tão complexa que ela é capaz de pensar algo de várias formas, ao mesmo tempo, e ainda colocar todas as formas para debaterem, ao mesmo tempo, na sua cabeça. E que não adianta os sábios virem querer heroísmo em cima de sua situação porque, enquanto ela não se resolver internamente, nada muda.

É óbvio que houve gente que soube o que falar, como falar, a hora certa de falar. É óbvio que eu sei escutar. É evidente que isso tem valor inestimável. O que incomoda é a falta de tato da maioria das pessoas.

É para deixar o Shrek entusiasmado.

02 de junho de 2017. Um ano e quatro meses. Estou passando por diversos desafios. Não estou nos melhores dias da minha vida.

Porém, estou feliz. Feliz por chegar até aqui. Por ter superado desafios incríveis. Por mostrar para mim mesmo que sou capaz de fazer coisas que eu não sabia que poderia.

Feliz porque, mesmo em crise de identidade, sei que houve uma grande mudança na minha caminhada. Feliz porque sei que vou conseguir, em algum momento, superar as coisas que têm me incomodado.

Porque já fiz antes.

Feliz porque tenho decidido fazer algumas coisas que já deveria ter feito. Mesmo que a palavra aquela ainda me impeça de fazer algumas delas, tenho começado a pensar em como superar isto.

Já me basta para iniciar.

Não sei como será nos próximos 16 meses. Tenho 8 meses de período pós-cirúrgico e de cuidados pela frente. Tenho mais uma cirurgia para fazer. Tenho muitos planos. Desejos e sonhos.

E quero ter uma vida pela frente.

Mesmo que, nesta caminhada, eu vá deixando coisas, outros sonhos, desejos, sentimentos e relações para traz.

O próprio processo pós-cirúrgico me ensinou isso. E não foi com comida. Foram as roupas. A partir do momento que elas não me serviam mais, comecei a perceber que as estava guardando no roupeiro.

Li alguns caras falando que era bom deixar as roupas antigas guardadas porque era possível engordar de novo. Não fez sentido para mim deixar aquelas roupas lá. Elas ocupavam espaço que eu poderia usar para outras coisas e me lembravam de coisas que não queria mais.

Isso aconteceu por, pelo menos, três vezes. Até chegar no atual.

Parece que a vida é assim também, não? Temos gavetas, prateleiras e outros compartimentos onde guardamos coisas e, principalmente pessoas, que não fazem mais sentido na nossa vida. Que não nos servem mais, ou para as quais não servimos. Que lembram coisas que não queremos mais lembram.

Ou pior, que nos afundam.

A vida é assim. E eu sou muito apegado à vida e às pessoas de quem eu gosto. Mas aprendi que, às vezes, é preciso reaprender, é preciso uma reeducação, onde muito é eliminado, muito é realocado, muito é alçado à novos patamares.

Muitas vezes é para a melhor.

Tenho feito. Não sei como será o futuro. Só sei duas coisas: Não quero ser aquele cara de antes mais. Nada contra uma pessoa ser ou não ser gorda. Cada um com seus pensamentos. Eu estou falando apenas de mim. E eu não quero voltar ao passado. Já vivo demais lá em outras esferas.

E a outra coisa é: seguir em frente. Sempre.

Com fé, esperança e forças. O resto vem junto.

Vai dar certo.

 

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