ENCLAUSURADO: SOBRE AS PRISÕES PERPÉTUAS DA VIDA – UMA HISTÓRIA QUALQUER

Vivia seus dias preso a coisas que não gostaria de se prender. Era doloroso pensar que poderia ser diferente, mas ele não conseguia se esquivar daqueles pensamentos.

Em quase todos os meios em que estava inserido, uma expressão antiga e palpável o perseguia: “Estar, mas não pertencer”. Aquela sensação de não pertencimento o acompanhava há alguns anos, mas parecia se alimentar de algum nutriente de seu próprio corpo para crescer.

E, enquanto ele definhava, ela se fortalecia.

Lutar contra era só o que ele fazia nos últimos tempos. Insistia em coisas que já tinha visto que não dariam certo. Mesmo com seu temor quase infantil de termos como “fracasso”, ele continuava deixando que aquelas coisas fizessem parte da sua vida.

Coisas ou pessoas.

Não que fosse algo absolutamente relevante. Talvez nem devesse ser categorizado como tal. Mas ele tornava relevante em sua mente. E ela, a mente, tinha o costume nefasto de tornar quase real o que antes era apenas uma doce (ou amarga) ilusão.

Os círculos eram muitos. Por menor que fosse sua capacidade de se inserir em meios que tivessem um contingente muito grande, sempre se via jogado em um destes. Não sabia onde havia errado para ceder de tal forma, mas era impossível conseguir sair de lá sem se ferir.

Seria possível que o jogasse no meio do círculo justamente para que fosse mais difícil encontrar a saída? Para que tivesse que lutar contra braços, mãos, sistemas e dedos que apontavam caminhos que ele sabia serem errados, mas que não ousava discutir porque já não tinha a paciência de outrora?

Ou porque, justamente, adquirira um outro tipo de paciência, aquele que usava para lidar com sua impaciência: o silêncio!

Não sabia.

Só não conseguia se libertar. Tentava, empurrava, desfalecia. Levantava, se jogava contra pessoas e paredes, mas nada o tirava de lá.

Era assim em quase todos os círculos. E ele acabava se resignando. Sentava e esperava para ver se, em algum momento, esqueciam-se dele, ou quem cansavam-se de sua presença ou companhia e lhe mostravam a porta de saída.

Era aquele sentimento de estar lá apenas com a matéria, o corpo ocupando um espaço que já fora seu, mas que hoje não lhe cabe mais. A mente, aquela mesma que o joga de um lado para o outro diariamente, brincando com seus medos e sonhos mais ocultos, ela ficava de fora.

O que não impedia que ela sentisse o sofrimento. Afinal, era ela a nascente da sensação de sofrimento, ou a transmissora da ideia, ele já não sabia.

Biologia não era o seu forte. Nunca fora.

Não criticava os círculos. Achava excelente a ideia das tribos, das comunidades, dos ajuntamentos ideológicos. Ou não ideológicos, não importava. Era uma boa ideia.

O problema era ele. Ele errava de forma rude na escolha dos seus círculos. Tinha dúvidas se era realmente ele quem os escolhia ou se os círculos o tragavam para dentro.

De qualquer forma, cria que, mesmo que fosse dos círculos a ação, ele falhava em reagir da forma errada. E as consequências lhe tiravam a paz. Porque ele não sabia como sair. Não sabia os motivos de sair, pois não compreendia exatamente como lá chegara.

Acreditava na ideia de que tudo na vida tem um propósito, um motivo, uma ideia conceitual por trás das ações. Mas ele não conseguia encontrar os seus próprios.

Era assim até quando o círculo era formado somente por ele mesmo. Sequer sabia o motivo de ter criado tal forma geométrica sem sentido. Mas ele, cada dia mais, limitava quem poderia adentrar aquele espaço.

Não, ele não aprendera coisas deste tipo com Jack Byrnes. Para ser sincero, algumas vezes ele se pegava pensando se James Herzfeld e seus amigos não tinham roteirizado uma pequena parte de sua existência. Procurava atrás de algumas árvores e em dobras de esquinas para ver se os tais roteiristas não o estavam seguindo.

Aliás, a versão brasileira do filme era praticamente uma homenagem em forma de título à sua existência. Afinal, haveria título melhor do que “Entrando numa fria” para definir sua relação com os círculos?

O mesmo parecia se dar em relação aos contatos mais pessoais. Ele se perdia em pensamentos que não deveria mais ter. E, mesmo quando ele era jogado para fora do próprio círculo, vitimado por negativas sequer solicitadas, ele insistia em não encontrar a maldita porta para sair.

E ficava lá, rodando infinitamente naquela forma geométrica infinita, enquanto mantinha um contato que não sabia se era realmente salutar, pois oscilava entre o paraíso e o inferno em uma questão de minutos.

Dante faria um livro de 3, 4 páginas. Certamente, se baseasse sua obra naquele ser, seriam 3 ou 4 páginas e um desencontro final com Beatriz.

Sentava em um banco qualquer e ficava pensando. Quais eram os motivos de estar em lugares que não gostaria de estar, fazer coisas que não gostaria de fazer, nutrir ideias que não gostaria de nutrir, alimentar desejos que não deveria, manter em sua vida pessoas que não deveria manter, jogar jogos reais que não deveria estar jogando ou mesmo deixar de fazer coisas que deveria fazer. No mínimo procrastinar até ter certeza de que a palavra-chave da sua desgraça não entraria em campo.

Não encontrava respostas.

Ou talvez ele soubesse cada uma daquelas respostas. Algumas ele sabia que podia conseguir resolver. Em outras, ele tinha medo de lidar com as consequências de sua ação. E ainda havia as outras em que tudo se resumia apenas à preguiça de lidar com as consequências.

Ainda sentado naquele banco qualquer, fazia planos de reação. Mesmo sabendo que não teria forças para tal. Sozinho não. Precisava de algum tipo de ajuda. Mas não sabia ainda qual. E nem se realmente queria.

O último pensamento que lhe veio à mente foi o de voltar para o aconchego do seu lar e ficar em silêncio. Era o lugar mais seguro para evitar qualquer coisa que lhe tirasse o pouco da paz que ainda conseguia conservar.

Ou, como dizem nossos governantes, “a sensação” desta.

Mas sabia que, em tempos tecnológicos, era inocência demais pensar de tal forma. O mundo lhe acompanha onde você estiver e ele sabia disso. Talvez os governantes tivessem razão, afinal.

Pior do que isso era saber que, justamente no silêncio, sua mente explodiria em barulhos constantes, que ecoariam sem parar nas paredes de seu crânio.

Ouve um estalar de dedos.

Levanta do banco e ruma para um daqueles círculos dos quais não pode nem ouvir falar, mais uma vez de debatendo, machucando e procurando uma saída.

Será que haveria de encontrar?

Comentários

Comentário