Um dia de cada vez? Ou não?

“Engasgo ideias confusas e sentimentos dúbios entre o peito e o palato.

Junto ansiedades e indecisões na mesma sala de espera, sem antever o quanto uma poderia levar a outra à loucura.

Limpo as feridas das decepções com corrosivo em vez de soro. Ouço que a dor pode ser boa. Mas ela só é boa em suplantar outras dores.

Paliativo.

Em meio às crises que se instauram no sótão da minha existência, me percebo pensando em soluções variadas para problemas que, na maioria das vezes, eu mesmo criei.

O que fazer, como fazer, por onde começar, como, onde, quando. E muitos porquês para preencher todas as demais dúvidas e anseios.

Já optei por todas as decisões. Algumas vezes, ao mesmo tempo. E neste mesmo “ao mesmo tempo”, permaneci estagnado, porque as decisões eram inconclusivas.”

Incrível marasmo reflexivo.

Sentimentalismo? Talvez.

Há poucos dias, ouvi de alguém importante pra mim que eu ando sensível, romântico e que devia estar amando. Além de achar “fofa” a percepção, passei um tempo lidando com ela. Lá no sótão da minha alma.

Porque, ao mesmo tempo em que ando realmente mais sensível a tudo o que me rodeia ou me acontece, romantizando a vida e falando sobre minha relação com ela de forma mais externada que o normal, a verdade é que eu sempre fui assim, mas sempre lutei contra qualquer tipo de exposição de sentimentos que pudessem ser armas nas mãos de quem gosta de usar suas coisas para lhe empurrar de precipícios existenciais.

Agora tenho me importado menos.

Quanto a estar amando. Talvez eu nunca tenha passado um dia sequer da minha vida sem amar. Fosse alguém ou algo, sempre foi tempo de amar. Acho válido, importante e belo o ato de amar, de se sentir ou estar apaixonado por algo ou alguém (tipo Audrey, assim.  – Ok. Não é isso. Mas poderia ser, né?)

Depois do meu divórcio, passei algum tempo com medo, e ainda guardo certo receio de que, em qualquer tipo de exposição de sentimentos através do que escrevo, alguém viesse a entender que eu ainda me referia a este passado.

Hoje eu já não me importo mais com isso. Porque quem conhece um pouco da minha história, sabe que não há como isso ser verdade.

Então, se hoje tenho algum tipo de sentimento por algo ou alguém, mesmo que seja absolutamente meu, não tenho problema de “enigmatizar” isso (criando neologismos bizarros a esta hora da noite) enquanto me permito externar que a vida é breve demais para me preocupar com o que vão imaginar ao meu respeito.

Ao mesmo tempo, todo este sentimentalismo é barrado por minha decisão de permanecer sozinho. É uma decisão bem embasada. Tenho meus motivos. Alguns sentimentais e outros bem práticos.

É engraçado como isto não afeta, em nada a capacidade de falar acerca das coisas legais da vida. Percebo no ser humano uma ansiedade por estar com alguém, por ficar com alguém, por precisar de alguém.

Eu entendo. Quantas cartas românticas eu já escrevi na minha vida declarando o amor da época como o ar que eu respirava, ou seja, como algo absolutamente essencial para que eu vivesse e fosse feliz.

A vida é dura e real porque ela mostra que sobrevivemos – e sem precisar de máquinas de oxigênio – após cada relacionamento malsucedido com estes “balões de ar imprescindíveis” com quem decidimos, em comum acordo, passar partes variadas de nossa vida.

Talvez esteja aí o grande problema. Estigmatizamos o/a outro/a e esquecemos de conviver com este/esta, de partilhar das coisas boas da vida, da parceria, do silêncio, do todo que compõe uma relação a dois.

Hoje eu percebo que não preciso estar com ninguém. Sempre gostei de estar com alguém. Ainda devo gostar, não sei, não tenho praticado. Mas percebi, após tempo demais emendando um relacionamento em outro, que não precisava ter feito isso. Que não precisava estar sempre com alguém.

E este é um dos motivos de eu não ver nenhum problema em ficar sozinho. Não tenho nenhuma ansiedade em estar com alguém. Minhas ansiedades sentimentais se referem muitos mais, por incrível que pareça, às dificuldades que tenho em expor certas coisas do que em estar ou não com alguém.

Brinco com uma amiga que decidi praticar o celibato total, mas me sinto bem em relação a estar caminhando sozinho. E não preciso de clichês do tipo “se você não for feliz sozinho, não será feliz junto com alguém” e suas variações. Porque, por mais que eu concorde com isto, felicidade é muito mais abstrata do que meros conceitos relacionais.

Somos nós, seres humanos que reduzimos a vida e ao relacionamento a dois.

A vida é, obviamente, sobre viver. A vida é conviver. Mas viver é muito mais do que a busca por alguém. E conviver não se resume ao relacionamento amoroso de duas pessoas.

Então, a felicidade não pode ser resumida nisto. Até porque a felicidade é uma busca constante, utópica, com pequenos estados temporários intercalados com novas buscas. Ser é diferente de estar, em um sentido mais amplo.

Não ando bem. Tenho dias ótimos, outros nem tanto. Mas em resumo, é isto, não ando bem comigo mesmo.

Tenho bastantes conflitos internos em relação à minha condição física e de saúde. Em algum momento, eu devo ter girado demais o botão de inversão de valores e agora tenho que reaprender a lidar com isto, sob pena de, se não o fizer, ter que lidar com problemas de saúde.

A autoestima é pior do que a maléfica gangorra grenal. Socialmente, me sinto bem. Internamente, algumas questões me causam conflitos interessantes.

Tenho confusões sentimentais (então, é possível que minha amiga esteja certa, afinal – aliás, ela sabe). Tenho confusões de carreira, que talvez sejam as que mais têm consumido meu vigor físico e mental. Coisas que preciso resolver e adio, dia após dia.

Recebo elogios diversos por muitas coisas que eu faço. Aliás, elogios são sempre bem-vindos, mas não sei lidar com eles. Além de ficar vermelho e sem graça.

Ao mesmo tempo, tenho consciência de que lido com uma capacidade de fazer mais de uma coisa com certa habilidade enquanto eu mesmo penso que não tenho toda esta virtude e me boicoto. Tanto que tenho buscado recursos para aprimorar todas estas questões.

Ainda neste caminho, procuro encontrar todos os erros possíveis e aprender com eles, para ver se decido o rumo a tomar. Foi um grande desafio entregar meu Trabalho de Conclusão nas mãos de minha mãe.

Uma coisa é saber sobre o que escrever, por exemplo. Ter boas ideias, expressar-se bem e escrever relativamente bem. Outra é passar pelo crivo de quem realmente sabe COMO se escreve bem. Aprendi muito corrigindo as correções.

São rumos, decisões, indecisões que criam ansiedades. Tenho confusões financeiras, oriundas, ainda de períodos onde me precipitei a partir de vãs esperanças. Oriundos de decisões erradas. E, ultimamente, frutos da crise financeira que abala meu mercado atual de trabalho e de um negócio muito mal feito com um automóvel.

São noites sem dormir, procurando rumos, pensando sobre o que fazer, como fazer, de onde tirar os recursos necessários para sanar esta dificuldade e poder deitar com a mente aliviada e deixar o sono cumprir o seu papel.

Tenho confusões em áreas que me permito, é verdade. Sejam sentimentais, amorosas, espirituais, financeiras ou de carreira, são situações pelas quais passo sabendo que poderia simplesmente agir de formas diferentes.

Mas eu tenho um grande defeito. Aliás, um defeito em cada uma destas áreas: Eu tenho apegos sentimentais que me cegam para coisas que me machucam.

Tenho decepções amorosas e continuo acreditando no amor.

Tenho uma fé que é inabalável mesmo sofrendo todo o tipo de abalos diariamente, principalmente vindos de quem não deveria vir.

Trabalho na confiança de que as coisas vão acontecer e melhorar as finanças, é uma fase e vai passar, afinal, estava tudo melhorando ali, agora. E cultivo minhas opções de carreira, rego, mas nunca decido quando colher. Nisto, as pétalas murcham, caem, apodrecem e tenho que começar o processo de cultivo novamente.

Enfim. Minha mente tem sido um turbilhão de situações.

Não escrevo isto em público para ganhar notoriedade, atingir algum público específico ou para que ouvir que gosto de ser foco de atenções.

Não. Não preciso disto.

Mas é engraçado o quanto eu sinto alívio ao escrever. Imaginar que estou desabafando com alguém que não vai se sentir na obrigação de me dar respostas. Apenas me “ler/ouvir”. É quase uma terapia.

Apertar o botão de publicar, mesmo em devaneios sem sentido como estes, é como dizer “ufa, consegui!”.

Até porque sobre sentimentos, amores, carreiras, espiritualidades e finanças, bem, sobre cada um destes casos, todos os envolvidos já sabem sobre o que penso, falo, sinto.

Sou um livro aberto, como dizem por aí. Rabiscado, marcado, escrito nas bordas, orelhas dobradas e com diversos post-its grudados em algumas páginas.

Às vezes, escrevo por pensar que, no mesmo momento em que passo por certas situações, alguém, em algum lugar, está passando pelo mesmo e, em algum tipo de simbiose telepática, daremos apoio um ao outro. E algumas vezes recebi feedbacks que me deixaram feliz por me confirmarem isso.

Em outras, como diz a velha música, parece que “estou falando para as paredes”, mas mesmo assim é terapêutico.

Hoje não foi um dia fácil. Muitas coisas ao mesmo tempo. Sonhos sonhados e que derrubaram paredes que vinham sendo erguidas com sucesso me deixaram um pouco desnorteado. Com aquela velha vontade de voltar para a caverna.

Tratos com tratantes também trabalharam em me deixar um pouco abalado mentalmente. Afinal, você fechar três negócios e depois ser passado para trás é complicado, principalmente com viagem e contas batendo à porta.

Lidar com os sentimentos dos outros também é sempre difícil nestes dias. Eu tendo a me afastar. Mesmo quando me procuram, eu acabo sendo evasivo. Sou bastante feliz em ajudar sempre a quem precisa. Posso dizer que tenho quase uma carreira estabelecida nesta área, de tanto que faço. Mas nestes dias, nada funciona.

Enfim. Como eu sempre costumo dizer, é só mais um dia ruim. Sempre passa. Amanhã será outro dia, mais um dia a ser vivido, com novas perspectivas e com as mesmas ansiedades e indecisões.

Porém, quem sabe, amanhã as novas perspectivas não abram novas possibilidades de trabalhar com aquilo que precisa ser trabalhado? É assim que vou dormir todos os dias, na esperança de que o dia que vem a seguir traga consigo novas coisas e que me ajude a lidar com as velhas.

Um dia de cada vez, este é o plano, pois, como disse uma vez um jovem mestre, já basta a cada dia o seu mal. Porém, talvez eu comece a seguir a ideia da figura deste post.

Talvez o “Minduim” tenha razão e segmentar em turnos seja mais prático. Vamos ver. Amanhã. Porque, por hoje, encerramos.

 

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