Inexplicáveis contradicões.

Uma das nossas grandes contradições como seres humanos é que, ao nos percebermos como humanos, advogamos em defesa de apenas uma parte deste ser.

Defendemos a “causa” do ser humano “bom” e nos esquecemos, ou preferimos não expor, o fato de que somos – ou estamos – seres ambíguos.

Um ser humano, por melhor que seja, ainda é falho. Um ser humano, por pior que seja, ainda reflete um pouco da bondade para a qual nasceu. Somos assim, seres complexos, incompletos, em busca de algo que não compreendemos e, neste processo, deixamos de trabalhar nossa percepção sobre nós mesmos e sobre o ser humano como um todo.

Estes devaneios me vieram à mente enquanto eu discursava comigo mesmo, em um embate ácido sobre a corruptibilidade do homem. Era o homem fruto de seu meio ou era o meio fruto do homem?

A humanidade, delimitada agora ao país em que estamos, se arrasta para o fundo do poço, arrastando consigo um emaranhado de sujeiras sem fim, travestidas de falácias que manipulam – sim, conseguem manipular – seus semelhantes que, chocados com o que os rodeia, não prestam atenção aos discursos falhos, vazios de sentido e pobres em induzir o povo a crer no que não é verdade.

Ao mesmo tempo, a humanidade do país ainda merece esperança. Mesmo que o recorte seja menor, mesmo que a amostragem prática seja irrisória, esta humanidade ainda merece este depósito.

Talvez sejam nossos olhos que, já acostumados a enxergar os monstros na escuridão, pupilas alertas, sejam cegados a cada facho de luminosidade que parte da humanidade ainda insiste em acender.

É, você sabe como funciona. Já se deparou diversas vezes com a troca de ambientes e a luz que, quando alcança nossos olhos acostumados ao escuro, cega momentaneamente.

Quando os olhos conseguem a adaptação necessária e voltam ao pleno funcionamento, o momento de ver já ficou para trás.

Há dois dias, tive as duas percepções em um pequeno intervalo.

Primeiramente, quando saía da casa de minha irmã (nem tanto) mais nova, onde comemorávamos seu aniversário. Eu já havia feito a volta na Avenida e seguia para casa quando percebi que meu cunhado e minha outra irmã não haviam saído ainda. Logo eles, ases da velocidade?

Diminui a marcha a tempo de perceber que ela colocara as mãos na cabeça duas vezes em um intervalo de poucos segundos. Quando entendi o que havia acontecido, já havia ligado o pisca-alerta do carro e feito uma conversão proibida para voltar até lá.

Compreensão perfeita, diga-se de passagem. E não por eu ter algum talento investigativo. Apesar de ser um atento leitor de Agatha Christie ou Sr. Doyle, não foram Poirot nem Holmes os que me ajudaram a ter a percepção do momento. Foi simples comparação com cenas já vistas por aí, o contexto da cidade e a nossa contaminação com esta realidade.

 Carro invadido, esvaziado. Irmã virara estatística na cidade que, a cada dia, presenteia seus pagadores com violência, insegurança, maldade em camadas, a iniciar na liderança, explodindo nas camadas mais pobres e abrindo portas aos mantenedores do caos gerado pelo tráfico de drogas e afins.

Perfeita visão da decadência da humanidade. Em um recorte nos fundilhos do planeta, em pleno março de 2017, quando deveríamos ter carros voadores, robôs domésticos e telepatia.

Verne ficaria chocado.

A tristeza, o desespero, as dores. Tudo ao mesmo tempo. Em essência, nos doemos muito menos pelas perdas em si e muito mais pela dor do estupro de nossa liberdade de ir e vir, permanecer em algum lugar, deixar algo que é nosso no lugar que queremos, enfim, a dor de simplesmente entender que um semelhante não respeita o que não é seu.

Porque o que é material vem, vai, mas a dignidade, ah, esta demora a se reestabelecer.

Algumas horas mais tarde, o mesmo recorte, nos mesmos fundilhos, já tão recortados quanto calças de adolescente estadunidense em época de High School, a humanidade apresenta sua outra face, aquela que nos traz à mente a esperança de dias melhores.

Dezenas, talvez centenas de pessoas surgindo em apoio ao que havia acontecido, manifestando desejo de ajudar, demonstrando empatia. E não falo das comunidades de fé apenas. Talvez este recorte seja ainda menor do que todos os demais, porque este recorte, muitas vezes, limita-se ao discurso e às quatro paredes das caixinhas onde se guardam as espiritualidades.

Aliás, nem é preciso um recorte. Se retornarmos ao Livro, ele já demonstra isso lá em Mt15, Lc7 e outros tantos. Mas nossas caixinhas brasileiras têm se superado.

Mas não foram estas. Mesmo que muitos ousem desafiar as leis e saírem das caixinhas para serem, de verdade, o que o Livro e seu inspirador ensinam e também estejam neste recorte.

Foram pessoas de diversos lugares, de várias crenças ou de nenhuma crença. Foram pessoas que olharam para um ser humano atingido por balas perdidas em meio ao campo de batalha e ali perceberam um semelhante. Que, mesmo que por poucos segundos, conseguiram vislumbrar o que é empatia, como se vive com reciprocidade e saem correndo, em meio aos projéteis que passam zunindo por seus ouvidos, e abraçam o ferido, ajudam a levantar e o levam para um lugar onde possa começar a se recuperar.

Seres humanos que, a partir da dor, compreenderam que o amor se manifesta de várias formas.

Me senti tocado. Me senti lisonjeado de poder presenciar este ato de humanidade em sua vertente mais doce e pura. Um pequeno spoiler de uma humanidade plena e restaurada de suas falhas e decadência.

São coisas como estas que me dão forças para, ao ouvir o telefone despertar, levantar da cama e dizer: “vamos lá”, quase todos os dias. Que me impulsionam a continuar mesmo quando meu corpo não quer, minha mente me boicota e meus sentimentos estão explodindo a ponto de me revelar mais do que eu gostaria de permitir.

Porque é a esperança de ver uma humanidade que se compreende, que entende o seu valor e o valor do seu próximo, que elimina qualquer barreira de injustiça, iniquidade, desamor, ódio, discriminação e tantas outras dores que continua alimentando nossas utopias diárias.

Ouvi certa vez e adapto aos nossos tempos que, hoje, ainda permanecem três pilares em nosso meio, disponíveis para serem utilizados: a fé, a esperança e o amor.

E de todos eles, o maior, sem dúvidas, é o amor.

Foi o amor pela minha irmã, mesmo que de uma forma incompreensível ao nosso entendimento, que motivou ações de todos os lados. Gente que mal conhece ou que nem a conhece, como percebi a partir do meu ciclo de amizades.

Foi o amor pela vida, pela humanidade.

Este amor gerou esperança. Esperança de que tudo vá ficar bem. Esperança de que gestos como estes, mais do que trabalhar em sentidos paliativos como este assalto, se espalhem e finquem raízes em nosso meio, gerando frutos que alimentarão novas gerações e, quem sabe, mudarão a realidade atual.

E o amor e a esperança são alimentados por uma fé que ultrapassa o nível de raciocínio lógico, mas que, com os pés no chão, olha para frente e sorri. Olha para a velha utopia e diz:

“Pode demorar. Pode não ser eu, pode não ser você. Mas nós vamos chegar lá. ”

P.S.: Se você chegou até aqui e não sabe exatamente do que estou falando, leia o post abaixo, ou clique AQUI!!

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