CENAS DO COTIDIANO S07E02 – SOBRE A ANESTESIA.

Dois livros que são famosos por servirem de baliza ao que acontece na realidade, apesar de serem ficção, parecem fazer cada vez mais sentido.
 
Ontem, ao me deslocar de um aluno para outro, ouvia “A voz do Brasil”. Sim. Eu faço isso, algumas vezes. Pois bem, duas das ênfases do programa de ontem me chamaram a atenção:
 
1) Reportagem que exaltava o fato de o Brasil ser um dos poucos países do mundo onde há possibilidade de aposentadoria por tempo de serviço, sem idade mínima. E que o país é um dos que têm a menor idade média para aposentadoria.
Em meio às alegações, entrevistas com estadunidenses e franceses que falavam sobre a aposentadoria em suas terras.
Uma propaganda incrível sobre as maravilhas de se aposentar no Brasil.
 
2) Reportagem afirmando que o reflexo da nova política de preços da Petrobrás já começa a ser sentido nos Postos de Combustíveis, onde os preços têm baixado nas últimas semanas.
Em meio aos argumentos, entrevistas com pessoas de algumas cidades que alegaram que os preços estão bem variados entre os postos.
Me lembrei de que, nas duas últimas vezes em que abasteci – e com o carro AAA que eu tenho, faço isso muito -, no mesmo posto, paguei R$3,59, depois R$3,69 e ontem, ao passar por ele, vi que estava R$3,75. Isso nos últimos 10 dias.
 
Lembrei-me, imediatamente, do famoso Ministério da Verdade (pesquise sobre) que, ainda que defasado em relação ao tempo, deixou os jornais para trabalhar no rádio e na TV e prestei homenagens ao profeta Orwell.
 
E a inércia de um povo, que do governo recebe doses de SOMA (lembra?), em forma de saques inesperados de valores que já eram seus, vitórias aparentemente espetaculares contra a tirania da legenda partidária populista, aquela que é a única responsável por todo o mal do universo, discursos com retóricas avançadas, que parecem representar um povo feliz, inteligente e que se recuperou de todos os seus problemas, realidades trocadas por termos como “sensação” outras tantas me fazem lembrar que Huxley cravou de forma certeira quando nos representou como seres alucinados em relação à realidade do meio em que vivemos.
 
Quando eu digo que, muito mais do que ler, pensar e imaginar como seria viver naqueles mundos distópicos da Literatura e do cinema, se prestassemos um pouco mais de atenção, se parássemos para observar e entender o que vivemos no país nos últimos anos, perceberíamos que, enquanto éramos jogados no meio da Arena para nos digladiarmos e servimos de entretenimento para os poderosos, também nos levaram para, se viver em uma destas realidades distópicas, ficar às portas da mesma.
 
E forçando a entrada.
Chega a ser mais do que irônico utilizar a expressão “realidade distópica”. Uma irônica forma de se utilizar o SOMA. 
Em Brasília, 8h30.
 
E contando.

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