METAMORFOSE AMBULANTE?

Este é mais um texto muito biográfico. Não gosto de textos que trazem um aspecto egocêntrico, mas, se você me der a oportunidade de explicar, fazendo o esforço de ler até o final, talvez haja algum parágrafo em que minha existência possa ajudar na sua. Então, permita-me pedir sua audiência e contar esta história:

Certa vez, ouvi que as pessoas não mudam. Que somos nós que, com o tempo, passamos a reconhecer o verdadeiro ‘eu’ do outro e mudamos nossa percepção sobre este(s).

Ou que as pessoas conseguem agir de maneira hipócrita durante algum tempo, mas não todo o tempo, e é neste momento que percebemos sua “mudança” que, na realidade, não existiu.

Passeando pelas redes sociais, percebi que há diversas imagens de frases com esta intenção. Diversas mesmo.

Se eu apenas partisse da minha cosmovisão cristã, eu já poderia erguer um monumental quadro de argumentos para conversar com quem pensa assim. Mas não preciso. Eu simplesmente não preciso por um motivo.

Eu mudei.

É evidente que as mudanças foram muito mais internas do que externas, apesar de eu não ser mais reconhecido na rua após minha cirurgia. Já até me acostumei e me esqueço quando cumprimento alguém que não vejo há tempos. Só percebo o erro quando a pessoa olha para mim com aquela face de “quem é este ser?”

Estou falando mesmo é da minha relação comigo mesmo e com o mundo que me rodeia. Da minha relação com as pessoas. Da minha relação com a vida.

Foram anos e anos de desconstrução de pensamentos variados, caminhadas, tropeços e novas carreiras. Foram anos de motivações erradas, caminhos trôpegos e pessoas erradas. De repente, eu percebo:

Eu mudei.

E, que coisa incrível é a vida. Eu percebi, de fato, que mudei, ao me ouvir falar em uma conversa que tive no dia de ontem. Como eu havia dita acima, sabia que tinha mudado, mas não sabia que era tanto.

Por alguns instantes, enquanto me ouvia falar, não sei como, mas eu estava prestando atenção em mim, percebi que todas as coisas pelas quais eu passei nos últimos quatro anos me ajudaram nesta mudança.

Tenho tantas falhas a serem corrigidas, tantas coisas que ainda são necessárias. Mesmo assim, é incrível poder olhar para trás, perceber toda a tempestade pela qual passei e dizer que consegui seguir adiante em tudo e que, depois de tantas tentativas,

Eu mudei.

O velho Heráclito já dizia que as coisas mudam o tempo todo. Um misto de filosofia com poesia, mas que traz razão ao nosso viver. Somos mutantes. Vivemos em constantes mudanças. Um dia é o suficiente para que não nos pareçamos em nada com o que éramos no dia anterior.

Sábio filósofo que, mesmo não sendo, de fato o idealizador do pensamento, exprimiu em palavras o que, às vezes, não compreendemos com imagens da realidade.

Assim como o tal rio que está sempre lá, mas nunca é o mesmo, porque flui o tempo todo, nossa imagem parece ser a basicamente a mesma, o tempo todo. Apenas a percepção mais profunda vai demonstrar que, mesmo que a identidade pareça a mesma, é mera ilusão pensar que não mudamos.

Eu mudei.

E, sinceramente, tenho pensado que para melhor, sem falsa modéstia e, ainda assim, sem qualquer intenção marqueteira. Até porque, né, não custa lembrar que eu sou o cara que escreve para um vasto e seleto grupo de… poucos leitores.

Me sinto melhor. Me sinto amadurecido, mesmo que este amadurecimento me traga a certeza de que ainda há muito o que amadurecer na vida.

Preparado, mesmo que eu sempre tenha o costume de me conceituar de forma contrária.

Mais paciente, mesmo que o trânsito e as circunstâncias mais intempestivas da vida ainda me deixem ansioso. Mas o paciente é nas áreas mais importantes do conviver.

Mais aberto. Aberto a viver, a conviver, a compartilhar, a refletir, a mudar de opinião, a experimentar.

Mudei a ponto de resolver pensar em mim. Às vezes, isso é importante, por mais que devamos estar atentos ao mundo. Mas, algumas vezes, cansamos de viver apenas para resolver a vida alheia, enquanto a nossa está caótica.

Resolvi, com o perdão das vãs repetições, resolver a minha vida.

Mudei minha relação com mundo. Mudei minha relação com a fé. Mudei minha forma de pensar e refletir. Mudei minha relação com o próximo.

Mudar dói.

É um processo dolorido de conhecimento e reconhecimento. De aceitação, de percepção do erro, de correção, de queda, de recaídas e retomadas.

Foram tantas as vezes em que me tranquei no calabouço dos meus pensamentos, buscando na solitude a esperança, paz, forças. Muitas vezes não fui compreendido neste processo, porém, este calabouço, este casulo, tornou-se importante para as mudanças. Ainda o é.

Mudar é um caminho sem volta. Porque é para a frente que se anda, ao menos a maioria dos seres vivos assim o fazem. Porque é para frente que devemos olhar, por mais que o passado seja um grande balizador de ensinamentos, motor de amadurecimento, manual de sobrevivência, muitas vezes dos caminhos a não seguir.

E sequer falo de olhar para frente em um sentido futurista. A não ser que tenhamos a capacidade de vislumbrar o futuro além dos nossos sonhos, é apenas lá que ele se materializa, mesmo. O restante é feito com os pés no chão, planejamento e capacidade de sonhar com esperanças, mais adiante, ali na frente, concretizar.

Esperanças. Eis uma palavra de irretocável valor.

Quando falo em olhar para frente, é justamente em uma perspectiva realista, de um passo de cada vez, de calma, de planejamento, de tentativa e erro, tentativa e acerto, de continuar a caminhar mesmo quando a vida nos derruba.

Ontem mesmo, no mesmo dia em que eu percebi o nível das mudanças pelas quais eu tinha passado, algumas horas antes, eu cometi o mesmo cíclico erro de toda uma vida, ao declarar derrota em uma partida que recém havia começado, apenas porque o time adversário parecia imbatível.

Há alguns dias, já vinha lidando com outras situações, com questões internas, fruto, ainda de minha desorganização passada, ou de outras questões que não cabem por aqui –  mas é algo que vai mudando – e isto me tirou o sono e me fez voltar a usar a bombinha depois de um ano.

É óbvio que eu coloquei a culpa disso na minha experiência malsucedida com o veneno para insetos que quase me matou, mas no fundo eu sabia que o veneno apenas tinha se aproveitado de uma brecha que eu mesmo havia plantado, como armadilha de autodestruição.

Algo que consegui manter longe de por um ano, mas que acabei deixando retornar porque a cabeça teve uma recaída ao querer pensar demais naquilo que não se pode prever, o futuro.

Um aprendizado. Agora é melhorar, e seguir adiante, torcendo para não ter crise de asma e poder voltar a correr ainda esta semana. Porque já me fez falta hoje.

É um processo, como disse. O amadurecimento parece ser um caminho a ser percorrido durante a vida inteira. Em um mundo onde há tantos experts em amadurecimento, vida, espiritualidade, prosperidade, relacionamentos, é incrível como o Norte de tudo isso é um processo longo, lento e cheio de bugs.

Tão cheio de bugs que, muitas vezes, pagamos para tais charlatões nos ensinarem o que só a vida por fazer por nós, além de nós mesmos e as pessoas certas a nos cercarem.

Um processo pelo qual eu decidi que deveria passar. E não me arrependo.

Nos últimos meses eu fiz tantas coisas que jurava que nunca faria na vida que o universo gritava nos meus ouvidos: “OLHE COMO VOCÊ ESTÁ DIFERENTE! ”.

Ao mesmo tempo em que me acostumei com esta frase ao me deparar com as pessoas analisando meu aspecto físico, não era isso que o universo queria me dizer. E eu sabia. Talvez o maior exemplo de que tenho conseguido melhorar em controlar algumas coisas seja este:

Eu estou tão calmo, pelo menos até o momento, com o fato de que tive que me render e terei que pegar quatro voos daqui um mês que não tenho nem ideia de como estou conseguindo. Porque eu tenho muito medo.

Aliás, quem me conhece, sabe que o que eu tenho mais medo na vida é justamente a possibilidade de não mais viver. Tanto medo que deixei, por muito tempo, de viver, conviver, vivenciar muitas coisas apenas por medo.

Por complexos de inferioridade (creia, o “arrogante” mais estranho do mundo sou eu, quase me orgulho disso – risos), por medos, por fracassos anteriores.

Há muito o que mudar. Mas eu aprendi a mudar. E posso responder a todos os que creem na impossibilidade de mudança que sim, é possível mudar e continuar sendo você mesmo. É possível amadurecer sem perder a jovialidade de pensamentos, é possível trabalhar erros e corrigi-los, mesmo que, no processo, acabemos errando novas coisas.

Porque é isso, um processo, mudar é um processo. Constante.

Eu cheguei a pensar e digitar a frase “espero que as pessoas percebam e aceitem as mudanças”, mas não. Eu não espero isto, realmente. Eu só espero que eu consiga perceber e aceitar as mudanças.

As pessoas fazem parte deste processo e, querendo ou não, reconhecendo ou não, não nos impedem de mudar. Suas convicções, pensamentos, conceitos sobre nós não podem mudar aquilo que vamos nos tornando. E o tempo nos mostra isso.

Ah, o tempo, outra palavra de inestimável valor. Para onde aponta.

Amadurecer é perceber no outro a capacidade que ele tem de crescer, evoluir, mudar, a partir de nossas próprias mudanças. Afinal, somos semelhantes, temos as mesmas possibilidades cognitivas, temos o mesmo sopro de vida, temos tempo, temos capacidade de sermos, estarmos, nos movermos, continuarmos.

Eu mudei.

E quero experimentar as coisas a partir das novas perspectivas que vão surgindo. Como, aliás, já tenho feito. E tem sido bom. Muito bom, aliás.

Mas a vida tem mais a oferecer, e, por incrível que pareça, mesmo quando eu acordo com aquela vontade de continuar dormindo por doze dias, eu consigo olhar para a vida, tomar forças e aceitar o que ela tem a me oferecer.

Dia a dia, momento a momento.

Aprendi muito com amigos. Aprendi muito com meus pais, principalmente. Com a família. Aprendi com os fracassos. Aprendi com minha fé, que é parte inerente de mim, que é motivo de tudo o que faço, mesmo quando não estou bem.

A vida é isso. Acertar, errar, aprender, apreender, desconstruir, reconstruir e, neste processo, ir pavimentando a estrada que vamos percorrendo ao longo de nossa jornada.

Somos nós que construímos isto, regados diariamente por auxílios mil, mas tomando forças para que nós mesmos caminhemos com nossas pernas, nosso impulso, nossa vontade.

Experimentar, se dar a oportunidade de tentar novamente, mudar.

Vale a pena.

Eu mudei. E tenho tanto a mudar que não vejo a hora de perceber novas mudanças, esperando que elas sejam para melhor.

Perceberam como eu ainda tenho que mudar esta ansiedade que contradiz meu amor pelo “agora”?

Com o tempo, aprendo.

A vida já me ensinou que isso é possível.

Graças a Deus. Graças à vida. Graças ao convívio. Graças. Graças.

Graça.

Há uma frase, muito compartilhada, que parece ter sido dita pelo falecido escritor George Bernard Shaw, falando que ‘“O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada. ”

Progredir é, também, a capacidade de ir adiante. E este é o nosso único caminho. Não é a única opção, porque podemos ficar parados, revivendo o passado ou tentando estender o presente. Mas a vida não para. Então, escolher progredir é optar pela ideia de que, na vida, passaremos por diversas situações e de todas elas, sairemos mudados.

E mais dia, menos dia, estas mudanças que vão nos construindo acabam por fazer de nós um ser mudado. Em constante mudança, mas já mudado.

É difícil de compreender, ou talvez não, mas o melhor mesmo é ousar experimentar.

Um jovem sábio, certa vez disse que, ao experimentarmos a verdade, ela nos tornaria livres. Ao mesmo tempo, ele enfatizava a necessidade de mudança.

É sempre possível mudar. Aceitar isto, desejar isto já é o combustível suficiente para a explosão de partida dos motores.

Então…

Sigamos e prossigamos em caminhar.

 

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