SOBRE CORRIDAS, A VIDA, E SOBRE A CORRIDA DA VIDA.

A vida pode ser pensada de diversas maneiras. Eu gosto muito de analogias. Apesar de perceber algumas analogias como facilitadoras de entendimento, não sei se minhas analogias caminham neste sentido.

Ou se correm.

Falando em corrida, foi exatamente enquanto eu corria, no último sábado, que alguns pensamentos vieram à minha mente. Sim, eu saio para correr por motivos de saúde e para aliviar a mente. Coloco o player do celular para tocar no modo aleatório do Spotify e no volume máximo.

Mas não adianta, sempre acabo pensando na vida. E foi justamente a corrida em si que me trouxe pensamentos sobre a vida.

Todas as vezes que saio para correr, antes de chegar aos primeiros cinco minutos, meus pensamentos todos se voltam para mim e dizem: “hoje está ruim! Vamos parar! Hoje não vai dar! Tentamos outro dia!” e outras frases na mesma linha.

Invariavelmente, eu continuo a correr. E quase sempre, a cena mental se repete a cada Quilometro, ou a cada cinco ou dez minutos. Em todas às vezes, ao menos durante os últimos 40 dias, nunca parei.

Na minha luta interna, sabia que, se eu parasse, acabaria por me acostumar a ser vencido pelos pensamentos negativos e logo acabaria desistindo de correr.

Então eu sigo correndo.

Pensei tanto na vida enquanto me percebia tendo esta rotina que quase fui atropelado. Não é exatamente esta a nossa atitude em relação a nossa vida, ou em relação a diversas partes específicas de nossa vida?

Parece que temos um botão interno, com acionamento automático, que rapidamente é ativado ao perceber que estamos iniciando algo que pode trazer bons resultados. Ou, mesmo que não traga um bom resultado por si só, mas que faça sua vida continuar.

 Um botão de boicote. E tantas são as vezes em que não localizamos este botão para desligar o processo, que acabamos por desistir daquilo que ativou o botão.

Outras tantas vezes é a própria vida que nos oferta uma dificuldade qualquer na nossa caminhada – ou corrida. E lá está o botão novamente, nos dizendo para desistir porque não vai dar certo.

Decidir ir contra a programação do botão é um ato quase revolucionário. O corpo e a mente entram em conflito com a ordem sistematizada e geram um bug no botão. Rapidamente, aproveitamos o curto-circuito para seguirmos adiante.

Pelo menos até a próxima tentativa de pararem nossa corrida.

Há, ainda, aquelas vezes em que não é um botão interno com ajuste automático. Pensei nisto quando percebi que continuo a lutar com estas dificuldades, mas as tenho superado todos os dias – na corrida e na vida.

Percebi, também, que há alguns momentos em que, talvez, sejamos obrigados a olhar para todos os lados antes de continuarmos nossa jornada. Porque, de qualquer um destes lados, pode vir alguém que nos atropele.

Seja de forma quase inocente, seja virando o volante do carro ou o guidão da motocicleta, bicicleta, enfim, alguém pode estar vindo em nossa direção e isto pode causar o fim antecipado da jornada.

É sempre bom olhar para os lados durante a corrida. E durante a vida. É incrível como há gente querendo nos atropelar, nos boicotar, nos maldizer, nos trair. Deixar que viremos as costas para, então, passar por cima de nós com mentiras, ou com falsa preocupação que se mostra, mais adiante, apenas estratégia para causar danos a sua jornada.

A corrida traz à lembrança clara de que, durante nossa jornada, devemos estar muito atentos ao que acontece ao nosso redor.

Ah, sim, o cuidado deve ser nosso também. A medida em que avançamos, fica difícil parar. Primeiro para não perder o pique, as pernas não perderem vigor e o corpo não entender que é hora de descansar. Um banho de endorfina na hora errada por atrapalhar.

Segundo, porque estabelecemos alguma meta antes de iniciarmos a jornada. Seja de tempo ou seja de distancia, apenas queremos chegar ao final da meta.

E é neste contexto que devemos cuidar para não passar por cima de ninguém. Afinal, as ruas, praças, avenidas, calçadas, tudo é público. Imagine você querendo bater a sua meta, nem que para isso tenha que empurrar aquela pessoa que está indo muito devagar a sua frente, ou caminhando/correndo no sentido oposto.

Nada justo.

O cuidado com a vida é muito parecido. Nossa jornada não deve ser construída na base do avanço sem medidas. Devemos ter cuidado para não machucar ninguém durante nosso caminho.

Talvez, a vida traga uma vantagem interessante: Podemos ir “devagar e sempre”, porque não temos pressa. E mais, podemos, inclusive, dar uma pausa na nossa jornada, para retomar o fôlego, sem que isto atrapalhe a jornada.

Dia destes, eu corria em uma praça, e uma menina corria em direção contrária a minha. Ou seja, nos encontrávamos a todo momento. Em um destes momentos, eu apontava em uma das curvas da praça e ela estava lá, já na reta quando parou para auxiliar uma senhora que queria sair do Sol com sua cadeira, mas devido as dificuldades de locomoção, tinha problemas para levar a cadeira.

A moça parou a sua corrida, interrompeu seu caminho para, em meio a sua jornada pessoal, ajudar outra pessoa que necessitava. Nada mais poético em relação a vida do que isso. A vida também é conviver e ser alguém que tenha valor em relação ao próximo. Mesmo que isso atrase um pouco a nossa jornada pessoal.

Por fim, mesmo recebendo apoio de vários lados, dicas de como correr, trajetos a serem cumpridos, equipamentos a serem usados, na hora de partir, somos eu e meu player de música, que serve como distração, portal para o universo paralelo e metrônomo de passos. Não há outro. A jornada é cheia de gentes ao redor, mas quem deve cumprir a meta sou eu, são minhas pernas, meus pulmões e meu vigor físico – ou a falta dele.

A vida é muito semelhante. Estamos aqui para conviver. Temos pessoas de todo tipo na nossa convivência. Estamos aqui, também, para partilhar da vida com estas, ter pessoas importantes em nosso caminho e nos fazermos pessoas importantes na vida de outras.

Mas a nossa jornada é pessoal. Mesmo que sejamos pessoas que tenham algum tipo de fé e saibamos que, no final das contas, não estamos sozinhos. Mesmo que tenhamos algum companheiro ou companheira de vida, de jornada, de corrida.

Quem tem que caminhar somos nós. Quem tem que viver a nossa vida somos nós. Quem tem que, em última análise, escolher os caminhos e receber suas recompensas e consequências somos nós.

A vida pode não ser exatamente análoga a uma corrida. Mas uma corrida pode nos trazer diversos pensamentos análogos a vida. Faça chuva, faça sol, esteja calor ou frio, seja bem cedo pela manhã ou já no crepúsculo do dia, sadio ou precisando de reforço na saúde, o ritmo da corrida não pode ser perdido, sob pena de termos que reiniciar todo um processo de condicionamento físico novamente.

A vida também não é assim? O sol nasce e se põe todos os dias, trazendo as mais diversas variações para a nossa vida e temos que continuar a lutar por uma vida plena.

Todos os dias.

Gosto muito de brincar com o filme que incita a personagem a “continuar a nadar”. Sempre uso muito a expressão “continue a caminhar”.

Depois destes dois meses, passei a pensar também em “continue a correr” como uma expressão bastante interessante para a vida. E, por mais que o melhor da vida é aproveitá-la dia a dia, bem devagar para não perder nada, lembrar que parar de correr pode causar problemas é um incentivo para não deixarmos a vida parar.

Porque ela continua. Ela sempre continua.

Aliás, Jenny Curran, gritando para Forrest e Lola, sob a pressão das circunstancias já haviam dado o recado para todos nós: “CORRA”.

Mas que seja tranquilo, observando a vida, cuidando para que seja o mais agradável possível.

Porque a vida pode ser muito agradável com o passar do tempo, as paisagens, os encontros e o autoconhecimento.

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