Romualdo Monteiro
O dia da nossa conversão é, sem dúvidas, a data mais significativa da vida cristã. Haverá outras, é verdade, mas esta será a mais impactante pelos seus efeitos produzidos no nosso exterior, mas principalmente, pelo nosso interior. A partir deste momento tudo é maravilhoso. Muita alegria, amor, dedicação, etc. Cada culto, encontro de oração, evangelismo, visitas aos enfermos, etc., são todos motivos de euforia, de êxtase. Somos agora estrangeiros em terra estranha. Até a nossa linguagem muda, ganhamos um novo idioma – o evangeliquês:
-A paz do Senhor irmão!
-Paz, meu irmão!
-E as bênçãos, como andam?
-Mas bah, caem que nem chuva serôdia (?)
-Oh glória! Aleluia!
-Mas homem de Deus! Estou vindo do monte. Passamos a noite inteira buscando Jeová. E o fogo caiu naquele lugar. O varão de branco desembainhou sua espada e operou milagres em nosso meio. Brasas vivas tocaram meus lábios e com isto fui arrebatado... O Espírito de Deus me conduziu até o pico do monte e lá me mostrou as almas que estão perdidas, sem Deus (...).
Nesta hora, o único perigo é se tiver um terráqueo (habitante da terra)* ouvindo tal conversa, pois ficará em alvoroço pensando que é uma dupla de alienígenas ou de fantasmas, afinal de contas, não somos deste mundo. Mas tudo isto faz parte deste período maravilhoso de nossa espiritualidade. E como diria o querido irmão Ademir: É uumaaa Beeeennnçãoo!
Para o novo convertido, tudo é ocasião de buscar a Deus. E comprovando tal fato, um dos termos mais utilizados neste período: “eis-me aqui Senhor, envia-me a mim” ou “Ora! Vem, Senhor Jesus”. Outro, a bíblia será um símbolo da nossa espiritualidade. Sempre visível quer saíamos ou voltemos para o lar, ela está sempre conosco. As pessoas até nem nos conhecem pessoalmente, mas sabem quem somos (ou quem deveríamos ser). Podemos esquecer a chave da porta, entretanto, da bíblia não esqueceremos. Um terceiro fato, serão as orações, ou melhor, aqueles gloriosos e longos momentos de comunhão com Deus. Oramos pelos enfermos, desviados, parentes e até pelos nossos inimigos (é uma benção!). Nos dias de culto, o diácono recém chegou à Igreja e lá estamos nós com um sorriso largo na face só esperando as portas se abrirem para nos derramarmos na presença de Deus. Quando inicia o culto, cantamos entusiasticamente, levantamos as mãos e, até aquele irmãozinho carrancudo, à nossa direita, o abraçamos e lhe desejamos as ricas bênçãos para sua vida. E na hora da pregação?! Toda reverência possível, ficamos quase que petrificados escutando o que Deus está falando. Nestas horas, esquecemos até de ir ao banheiro. Terminado o culto, nos dirigimos para nossos lares em estado de êxtase. Já em nossas casas, o rádio estará ligado e sintonizado numa emissora com uma MENSAGEM: SARA BRASIL! E na ESPERANÇA de um NOVO TEMPO que virá, ALELUIA!!! E não escaparemos disto.
Nesta face de nossa alta espiritualidade, o pastor é o ungido do Senhor! O anjo da Igreja! Ele é o nosso maior referencial, o exemplo a ser seguido. Sempre buscamos um jeitinho de ele impor suas mãos sobre nossa face e quem sabe, derramar um pouquinho de óleo sobre nossa cabeça. Nem que tenhamos que convidá-lo para almoçar em nossa residência, afinal de contas, nosso lar será grandemente abençoado pela presença do meu pastor. E a juventude? Esta é uma benção! Convidamos os jovens para evangelizar conosco, ou visitar os enfermos ou ir ao encontro dos desviados. Em todas as orações que realizamos diariamente, colocamos os jovens como umas das prioridades, pois queremos ver a mão de Deus agindo sobre suas vidas. Pedimos para o Senhor levantar líderes oriundos da juventude.
Entretanto, como em tudo na vida, haverá aqueles momentos em que ninguém quer passar. A nossa espiritualidade começa a desvanecer como as nuvens. A causa? Perdemos a comunhão diária com Deus. Mas, para mantermos a pose, não admitimos tal fato. Todavia, seguem alguns sinais da decadência de nossa espiritualidade. Senão vejamos. Já não oramos como antigamente, lembram?! Ficávamos horas na presença do Senhor e nem percebíamos. Hoje, já com os devidos descontos, são aproximadamente, cinco minutos diários. E pelo jeito, chegaremos ao glorioso “segundos com Deus”. E a bíblia? Ela está bem guardada, no armário, ou está aberta no salmo 23 ou 91(não me perguntem o por quê!). E os cultos? Ah, estes estão cada vez mais enfadonhos a começar pelo som – ou está alto demais ou muito baixo. Só pra variar, sempre dá microfonia. Se o culto inicia 19h, chegamos às 19h45min e queremos sentar no lugar de sempre, e exigimos que o mesmo termine pontualmente no horário, afinal de contas, damos (sic) o dízimo e nossas ofertas nesta Igreja, portanto, tenho meus direitos. E a pregação? Bah, que enrolação! (aqui sempre começa uma crise urinária).
Dizemos que o pregador é gritão ou fala muito baixo. Se pregar quarenta minutos é falta de consideração com a igreja; se pregar cinco minutos, não sabe nada. Se usar paletó e gravata, é fanático; se usar calça de brim e camisa de mangas curtas, é mundano. E as nossas orações?! Elas se tornaram tão superficiais, ao ponto de até os fariseus, caso ainda existissem, nos invejariam. E a bíblia? Ah, agora ela é um objeto de suma importância, seja escondida na bolsa, embaixo do bando do carro, ou na gaveta do armário. Aí o pastor, em tom de descontração, pergunta: Perdeu a espada, hein? Em tom de cara amarrada, ou melhor, santificada, respondemos: “Não senhor, ela está guardada no meu coração!” (isto não é questão guardar, mas de doer, o coração). E a nossa, juventude?! Esses carnais e inconstantes não querem saber de Deus. Só querem fazer festinhas ou andar de namoricos e ti ti ti... (aqui chegamos ao ápice de nossa decadência). E o pastor?! Bem!...É melhor terminarmos por aqui...!
Enfim, ninguém tem o direito de julgar quem é ou quem não é espiritual. Não possuímos um medidor espiritual, mas estes sinais servem de amostragem: estamos em perigo. Cabe tão somente a nós uma tomada de decisão: ou continuamos nesta situação, ou nos arrependemos enquanto há tempo. “Lembra-te, pois de onde caístes, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5). O que escrevemos aqui são apenas vestígios da uma queda espiritual. Isto não quer dizer que tudo está acabado. Mas este é o momento que Deus quer nos erguer novamente!
*não cristãos.
Romualdo Monteiro
Romualdo é teólogo e filósofo graduado, lider da Igreja Metodista em Cachoeirinha e professor de Teologia







1 comentário
Não venho com a intenção de deixar comentário sobre o tema (faltar-me-iam argumentos e até propriedade), mas opto por falar a respeito de quem o escreveu. Romualdo é mais um de nossos pensadores contemporâneos que [a exemplo do proprietário deste espaço] mantém-se na ofensiva em busca de uma sociedade cristã mais digna deste epíteto.
Temos motivos de sobra para ler e conversar com o Romualdo. Pra mim trata-se de um pensador que tenho a oportunidade de conversar aos domingos e até pedir conselhos. Um ser humano com os predicados que só um homem íntegro pode ter.
Quanto ao assunto abordado, concordo com tudo e temo por esse mundo que se utiliza de Deus para formar quadrilha e obter lucro. Um mundo que ocupa espaço na internet para definir filósofos como Ricardo Gondim como sendo Herege. (humpf)
Estamos em processo de expansão cristã, mas infelizmente a opção foi pela quantidade. Melhor parar por aqui que minha praia é a poesia!
Um abraço Romualdo; um forte abraço de quem te admira. E ao meu irmão Rodrigo, parabéns pelo espaço. Que dupla hein?
Abraço.
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PS: Retiramos a opção ANÔNIMO para ver se alguns amigos mostram a cara, e não se escondem atrás da covardia... basta colocar seu nome na opção nome/url... abraçoes (10/01/2010)